Assisti ao primeiro episódio de “Greenleaf” e eis o que tenho a dizer

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Sabe aqueles escândalos que ouvimos falar quase que diariamente envolvendo igrejas faraônicas aqui no Brasil e em outros países? Greenleaf, nova série lançada na Netflix, que tem Oprah Winfrey como produtora executiva, vem mostrar uma a uma. Mas isso não é só sobre dirigentes de igrejas, ou líderes em comunidades religiosas de qualquer natureza. É muito sobre a hipocrisia nossa de cada dia ao “ir para a igreja rezar e fazer tudo errado”, como diria uma canção popular brasileira.

O plot é o seguinte: o Calvário é uma mega igreja midiática que deixa qualquer outra que você já viu na TV no chinelo. Sediada no Tenessee, EUA, é 100% dirigida por negros, que também compõe, diga-se, 99% dos milhares de fiéis que lotam o templo (que mais parece uma casa de shows) todos os domingos. A família que fundou e comanda o Calvário são os Greenleaf, que vivem com uma estrutura que lembra as novelas mexicanas dos anos 90 – filhos casando e morando na mansão dos pais, muita riqueza, etc. E com as mensagens de forte apelo emocional (e base bíblica abaixo de zero) e as músicas animadas, atraem multidões que não só levantam as mãos e adoram, como deixam alguns milhares de dólares na caixinha.

A narrativa começa quando Faith, uma das filhas do bispo Greenleaf (Keith David) e Lady Mae (Lynn Whitfield) é sepultada, após cometer suicídio. (O que é muito sugestivo, a fé morre no primeiro episódio…) A causa da morte da moça não é mencionada, mas fica claro logo nas primeiras cenas, quando Grace (Merle Dandridge) e sua filha Sophia (Desiree Ross) se aproximam de um grande lago nas terras da família e Sophia comenta: “foi aqui que a tia Faith…”

O suicídio de uma das filhas não é o único esqueleto no armário dos Greenleaf. Ao longo das cenas,  o espectador tem flashes da desmanteladíssima vida privada de todos os membros. Enquanto na sala de jantar despejam lições de moral em cima da recém-chegada Grace (a única ali que se afastou, depois de passar anos pregando para as multidões) e tentando demonstrar pureza e santidade, nos seus quartos ou fora da casa ficam reveladas as mazelas: adultério, vaidade exarcerbada, consumo de drogas, omissão, corrupção, etc. Mais coisas devem ser reveladas ao longo dos episódios, mas só o primeiro episódio deixa tudo isso escancarado, como se tivéssemos uma câmera escondida.

Grace Greenleaf é a outsider da família. Deixa a mansão e a igreja para viver sua vida e sua carreira longe do cristianismo de fachada dos seus pais; e choca a família ao dizer que só vai à igreja na Páscoa e no Natal. Para aquela família tão legalista, isso é o mesmo que não acreditar em Deus (será?) e é a revelação que provoca o primeiro embate da família, levantado pela cunhada Kerissa (Kim Hawthorne), que carrega permanentemente um tom de amargura e desdém na voz e apoiada por Lady Mae. Isolada dentro da própria casa, Grace encontra apoio em Mavis (Oprah Winfrey), sua tia, que há muito já andava afastada de tudo aquilo, justamente por saber demais.

Greenleaf não é exatamente uma série nova, está no ar desde 2016, mas chegou à Netflix Brasil esse ano. O tema que ela aborda não é novo para nós (infelizmente já vimos coisas parecidas nos telejornais da vida), mas é importante quando uma obra de ficção coloca o dedo na ferida, como Greenleaf faz. Vale muito a pena assistir.

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