“Feliz ano velho”, de Marcelo Rubens Paiva

Semana passada, concluí a leitura de Feliz ano velho, romance de estreia do Marcelo Rubens Paiva que foi publicado em 1982. Era um livro com o qual eu vinha flertando há mais ou menos um ano, e cheguei a ler o primeiro capítulo na biblioteca municipal, mas acabei adiando a leitura do livro inteiro. Bem, o levei para casa apenas muito tempo depois, e foi uma leitura rápida, de apenas três dias. Terminei de lê-lo em uma noite de sábado, num fim de semana em que eu estava particularmente fragilizada e triste (um estado de espírito que me acompanhou por duas semanas seguidas, e do qual agora posso dizer que estou me recuperando).

Mas falando do livro: Feliz ano velho tem como ponto de partida o acidente que tornou seu autor paraplégico, em dezembro de 1979; e narra o ano seguinte, de um longo período em hospitais e a volta para a casa em São Paulo, onde continuaria o processo de recuperação e adaptação à vida como deficiente físico.  Mas o livro vai além disso.

Entre as narrações do cotidiano em quartos de hospital e visitas de amigos, parentes e algumas paixões, Paiva revisita os anos de ditadura, dos quais ele mesmo foi vítima ao ter seu pai, Rubens Paiva, preso e desaparecido político (torturado, morto e cujo corpo jamais foi retornado para a família, como aconteceu com várias outras famílias na época).  Também relembra os tempos de estudante de Engenharia Agrícola na Unicamp: as paixões vividas, a tentativa de fazer carreira na música e a participação em um festival televisionado (uma das últimas tentativas de emissoras de TV de fazerem reviver o tempo dos festivais dos anos 60, onde foram projetados vários nomes famosos da música brasileira hoje).

Apesar de ser um livro que gira em torno de uma tragédia pessoal, não consigo ver sinais de autopiedade em nenhuma linha. Nem mesmo quando ele passa um Natal e um réveillon deprimentes na UTI em Campinas. A gente não sente pena do autor-personagem, também não consegue culpá-lo pelo incidente que poderia ter acontecido com qualquer um. A gente começa a torcer para que ele se dê bem, que volte à vida regular (pelo menos foi o sentimento que tive). Não é uma leitura que deixe a gente triste, ou que levante o astral. Pela linguagem empregada e pelo autor ser também personagem, a impressão que tive era que a história estava sendo contada para um amigo, depois de muitos anos dos acontecimentos narrados. E ainda tem o apelo visual, não é difícil visualizar as cenas como se fossem cenas de um filme (a propósito, há o filme baseado no livro, que foi lançado em 1987 – e eu imaginava que fosse um filme dos anos 90, ainda vou buscar assisti-lo).

O que achei muito legal nesse livro foram as referências explícitas aos anos 80, especialmente sobre a televisão. Quando Marcelo começa a ver TV no hospital, ele menciona algumas novelas; entre elas Os Gigantes, do Lauro César Muniz. O nome da novela não é citado, mas qualquer um que conheça um pouco sobre novelas vai identificar logo pelos atores principais, que são mencionados no texto. E parece que era uma unanimidade que essa novela não foi das melhores…

Além da parte referente à morte do pai durante os anos de chumbo, Feliz ano velho também traz mais referências políticas, que igualmente chamam a atenção. No hospital, Marcelo recebe visita de algumas figuras políticas, e também tem uma breve menção ao início do PT. Lendo o livro hoje, é impossível não pensar na trajetória que o PT seguiu (bem como os partidos que foram fundados depois dele), e no noticiário político de todos os dias.

Em suma, Feliz ano velho mostra que é muito mais do que um romance autobiográfico sobre um jovem que vê sua vida mudar radicalmente após um acidente. É também um breve registro de como era a vida e a política no final dos anos de 1970 e início dos de 1980.

Quem ainda não leu, pode encontrar o livro na Amazon, Cultura, Saraiva ou Estante Virtual. Ou visitar a biblioteca pública mais próxima de você. 😉

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