Ouvindo: “Visions of dawn”, de Joyce Moreno, Naná Vasconcelos e Maurício Maestro

Visions of dawn foi gravado em 1976, por Joyce (que já foi tema de post aqui no blog), o percussionista Naná Vasconcelos e Maurício Maestro, que é mais conhecido por ser integrante do Boca Livre). O registro só veio à público muito tempo depois, mais precisamente em 2009, pela Far Out Recordings; e na divulgação, referiam-se ao álbum como um trabalho “psicodélico” de Joyce.

Das gravações de Joyce, essa foi a que ouvi menos, por ter sido a que me chamou menos a atenção. Mas por esses dias, trombei com o álbum de novo e resolvi ouvi-lo com mais atenção.

As músicas BananaClareanaNacional KidTudo Bonito seriam conhecidas do público brasileiro entre os anos 80 e 2000: As duas primeiras no clássico Feminina (1980), Nacional Kid no disco Tardes Cariocas (1984), que quase ninguém conhece, mas que foi reeditado no box Anos 80, lançado ano passado; e Tudo bonito é do álbum de mesmo nome, lançado em 2000. As demais canções da tracklist não fazem parte de nenhuma outra gravação posterior que tenha sido lançada, seja em estúdio ou ao vivo.

Clareana, por exemplo, ficou muito mais delicada do que a versão de 80. Banana não tem muita diferença. Talvez as músicas mais psicodélicas, dentro do meu parco entendimento sobre o assunto, sejam Tudo bonito, Suite 1- Memórias do Porvir/ 2- Visões do amanhecer e Jardim dos deuses. A sonoridade que a gente experimenta ao ouvir essas músicas é como se a gente participasse de um sonho. Ou de uma trip mental, motivada por qualquer coisa aí.

Numa dessas lembrei de dar uma relida no livro da Joyce (Fotografei você na minha rolleyflex, publicado em 1997 pela MultiMais Editorial), para ver se tinha algo que remetesse exatamente à gravação desse disco. Não tinha, mas tem uma passagem sobre 1970 no México que eu de alguma forma conectei à Visions of dawn:

O corredor do hotel – estávamos todos no mesmo andar – virou um formigueiro, um zunzum de gente indo e vindo a noite inteira, entrando e saindo dos quartos não só nosso grupo, como amigos que já tínhamos na cidade, e que apareceram para assistir à nossa trip. E que trip! Em cada quarto que se entrasse, havia um happening diferente. No de Naná, por exemplo, estava sendo celebrada uma espécie de missa afrobrasileira, uma cerimônia ao mesmo tempo profana e religiosa para os erês invisíveis que, segundo ele, moravam ali. Uma pequena plateia de americanos assistia em respeitoso silêncio. Entrei, comecei a cantar a Bachiana nº 5, com o berimbau de Naná em contraponto, numa performance que mais tarde tentaríamos em vão repetir. Nunca mais deu certo, é claro, se é que dera naquela noite. […] Outros de nós tinham alucinações visuais e sonoras, entremeadas por sessões de vômitos e mal estar, conforme a disposição de cada um. Aconteceu de tudo, instrumentos quebrados, corações partidos, amores desfeitos, pedidos de casamento, deslumbres sensoriais, sonhos e pesadelos. (pp 71-72 – grifo meu/texto transcrito de acordo com a nova ortografia)

Aí a gente pega a letra de Jardim dos deuses:

Eu já visitei
O jardim dos deuses
mais de uma vez
Em busca do prazer e da paz
Mas tudo que eu encontrei
Desapareceu depois que eu voltei
E eu nunca me esqueci
Do perfume do jardim

Mas não vou ficar
Triste na lembrança do que passou
Vou encontrar o amor aqui mesmo
E se um dia eu voltar
Ao jardim dos deuses uma vez mais
Não quero nem saber
Nada me fará sair de lá.

Depois de transcrever a letra e ouvir com atenção, acho que posso dizer que aprendi um pouco sobre psicodelia.

Mas a minha música favorita de Visions of dawn é de longe Suite 3 – Carnavalzinho. É uma música curtinha, mas é muito feliz. ^_^ Enquanto eu escrevo esse post, ouvi essa música uma vinte vezes, hahah.

Visions of dawn pode ser considerado um tesouro da música brasileira. O melhor dele para mim é (além de Suite 3 – Carnavalzinho) ouvir outras versões de músicas que eu já conhecia, e ter outra experiência sonora. Vale a pena ouvir!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s