Textos do limbo

Como fim de ano é época de fazer o faxinão na casa, aproveitei a chance para dar uma geral nos arquivos do Google Drive. Como sou dada a começar as coisas e não terminar (defeitão, eu sei), o que tem de textos inacabados, promessas de romances que morgaram no meio, roteiros que jamais foram concluídos, roteiros concluídos que jamais foram gravados… Uma pilha imensa de frustração. Mas resolvi fazer algo diferente com a pilha e…

  • Um monte de coisa vai para o lixão. Dói descartar coisas? Sim, dói. Dá uma peninha. Mas sabe aquela coisa de ter de se livrar do que é antigo e que não agrega (ou seja, os textos que achei basicamente bem problemáticos, para não dizer ruins e vergonhosos)  para que o novo possa florescer? Pois é: para ideias novas surgiram, as velhas precisam desocupar o espaço. Se é preciso descartar o que não vai pra frente, que seja!
  • O que prometia ser um textão mas virou um textinho e de repente não evoluiu mais, considero por concluído e vai ver a luz. Onde? Aqui mesmo, porque é pra isso que a gente tem blog. Então, pelo menos por essa semana, todos os textos do limbo vão figurar aqui. Os textos em inglês (ou outros idiomas, em breve vamos expandir os trabalhos #projetopoliglota) vão para o meu blog em inglês (yes, agora tenho um!)
  • De repente, dependendo do nível de vergonhosidade, até alguns textos do hall da vergonha venham para cá, para divertir vocês antes de partir pro lixão da Mãe Lucinda eletrônico.

Esse é o meu jeito de voltar a me animar com o ofício da escrita (além daquele desafio da palavra do dia, que segue vivo) e continuar animada com o blog. Sabe como é, às vezes a gente não sabe bem o que fazer com o espaço…

Acho que já é explicação suficiente… Então vamos ao primeiro texto, que é de uma série de exercícios que eu tinha feito ano passado, quando eu me dedicava a criar uma cena por dia. Foi legal, mas não durou uma semana. Já disse que eu tenho essa coisa de começar projetos e não concluir, né? Então…

02

– Eu precisava fazer uma escolha. Era comprar o leite da minha filha ou pagar o táxi. Se eu tivesse pegado o táxi, a coitada ia morrer antes de chegar no hospital. De fome.

Ninguém perguntou a Laura o por quê de ela ter levado o bebê na cestinha da bicicleta, tão mal ajeitada, mas ela já ensaiava mentalmente a resposta que dariam. Diria mais: entre lágrimas, pediria para que os outros se colocassem em seu lugar. Ela que não tinha mais o suficiente para se manter, que não comia há um dia inteiro, que pela primeira vez passava fome, com uma menina de três meses de nascida nos braços e sem saber o que fazer nem com ela nem consigo, aos dezesseis anos.

Dar o bebê não era uma opção. Não que ela não tivesse pensado nisso, mas já tinha se apegado à criança que tinha gerado às custas de dor, lágrimas e culpa. Mas ao olhar para ela, só conseguia ver pureza e paz. Pedalando por uma rua erma rumo à casa abandonada que havia invadido há poucas semanas, Laura quase não tirava os olhos do seu bebê adormecido, alimentado e medicado. Ela própria também tinha recebido cuidados, seu estômago estava cheio e o coração acelerava devido ao esforço. Some-se aí também um pouco de medo por ser mulher, jovem, sozinha com uma criança, desarmada em uma cidade potencialmente violenta.

Até então não tinha lhe aparecido nenhuma ameaça, nenhuma sombra, fosse de animais ou de gente. Passando na frente da padaria, ouviu os primeiros sons. Distantes, vinham de alguma TV ou rádio. Ela começou a sentir alívio naquele ponto do caminho, estava perto de casa, se é que poderia chamar aquele lugar assim.

Duas casas depois da padaria havia uma esquina, e dali, daquele ponto mergulhado no escuro, saiu um homem trôpego. Encurvado e tropeçando nos próprios pés, se jogou no meio do caminho que a menina da bicicleta fazia. Laura não teve tempo de frear, a propósito, nem tinha freio naquela bicicleta roubada. O guidão triscou no homem, que já despencava pesadamente no chão.

Alguns metros depois, ela conseguiu parar colocando os dois pés no chão, e seu bebê começava um chorinho, talvez por ter sido despertada bruscamente com a parada da bicicleta. Laura estava ofegante pelo esforço e pelo medo. Olhou para trás e não viu mais que uma sombra disforme, tentando se reerguer, para em segundos cair novamente no chão e ficar imóvel.

– Meu Deus. – ela pensou. – Eu machuquei aquele homem. Só falta eu ter matado esse também.

Laura sentiu algo aterrorizante surgir em suas entranhas, percorrer a espinha. Respirou fundo, conteve a vontade de vomitar. Desviou o olhar daquela cena, tocou de leve a cabeça da sua filha, tentando acalmar seu chorinho e voltou a pedalar, sumindo em um beco escuro.

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