Da série “textos do limbo”, cena 03

Juliana esconde o controle da TV embaixo dos lençóis. O aparelho ligado exibe, em volume quase nulo, um filme não adequado para sua idade – a garota tinha 14 anos e um pai que a via como a criancinha que ela não mais queria ser.

Com a porta entreaberta, Juliana observava os movimentos do pai, que ainda trabalhava. Disso ela sabia, porque a luz da sala ainda estava acesa e chegava até o quarto, formando uma sombra. Ela mantinha um olho nas cenas do tal filme proibido e o outro na luz que vinha do corredor, até que ela se apagou. Em um movimento rápido, Juliana pega o controle embaixo do lençol e aperta o botão vermelho para desligar a TV. Aperta uma, duas, três vezes. Nada acontece e ela fica levemente desesperada. Ouve passos vindo na direção do quarto e, quase em pânico (medo do castigo, talvez), aperta o botão mais algumas vezes, até enfim a televisão desligar. Aliviada, a menina se joga na cama.

O som de passos aumenta e ela fecha os olhos, se cobrindo com o lençol e escondendo o controle debaixo das pernas. Respira fundo, tentando parecer tranquila para si mesma.

Cesário ainda estava com um pouco de farinha nas mãos quando empurrou a porta do quarto de Juliana, mas parecia não se incomodar. Olhou em volta, não parecia ver nada estranho no ambiente: luz apagada, aparelhos eletrônicos desligados, a garota quieta, com a cabeça escondida debaixo do lençol branco e fino. Ele não gostava que Juliana fizesse isso, tinha medo de que ela morresse sufocada ou algo assim. Imediatamente ele se aproxima e com a mão ainda suja de farinha, tira o lençol do rosto dela, revelando seu rosto falsamente tranquilo, semicobertos pelos cabelos castanhos claros, compridos. Depois de descobri-la, tira os fios cuidadosamente do rosto, temendo acordá-la, e um pouco da farinha passa de sua mão, indo parar no nariz dela.

Juliana quer espirrar, mas percebendo que ele ainda está lá, se controla. O beijo na testa é o sinal de que ele já vai embora e só voltará na manhã seguinte, a acordando para ajudar a atender na padaria no sábado. Mal escuta o clique na porta, ela finalmente solta o espirro que estava controlando, e mais dois. Abriu os olhos depois do último espirro, e nada aconteceu. Tudo estava escuro e sua porta, fechada. Tornou a fechar os olhos, a qualquer momento dormiria de verdade.

Quando estava quase pegando no sono, ouviu outro barulho que a despertou. Uma batida forte bem na frente da sua janela.

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