Da série “Textos do limbo”, cena 04

Juliana tentou até segurar a respiração, só para ouvir melhor o que se passava ali fora. O que havia a despertado do seu quase sono era um baque, que não voltou a se repetir. Não aguentou mais, precisava soltar o ar e expirou pela boca. Assim que fez isso, ouviu um ronco alto, e vinha da janela aquele ruído gutural. Esse se repetiu, e Juliana não pensou muito antes de agir: em questão de segundos estava de pé, se aproximando para abrir a janela sem fazer barulho. Que horas deviam ser? Ela não fazia ideia, mas tinha certeza que naquele momento seu pai estava no momento mais profundo do sono e não a flagraria abrindo a janela em plena madrugada, para o que quer que fosse.

Então ela descobriu o homem desacordado, encostado na parede, logo abaixo da sua janela. Ele roncava alto e exalava uma mistura de álcool, suor e cachorro molhado. Os cabelos castanhos eram volumosos, não deveriam ser cortados há uns bons meses; e estava bem barbeado, então não era um homem de rua qualquer. A propósito, apesar de estar todo desmazelado, Juliana o achou bem bonito, depois de pular a janela para enxergar o sujeito de frente.

– Moço, acorda. – Juliana começou a cutucar seu braço, com um pouco de medo e nojo. Nada aconteceu.

Ela ainda esperou mais um tempo, mas ele só roncava, babava, nem abria um pouquinho os olhos. Começando a sentir frio, ela sentou no parapeito da janela pronta para voltar para dentro da casa, mas sentiu algo atrair seu olhar para aquele bêbado adormecido.

– Será que ele vai morrer?

A ideia de saber que um homem poderia morrer ali tão perto dela a aterrorizou de tal forma que saltou de volta para a rua e arrumou forças Deus sabe de onde para colocar o bêbado para dentro de seu quarto. Era pesado, tinha braços firmes e sem dúvida o abdômen era definido. Como fazê-lo entrar sem fazer barulho? Não foi possível: Juliana perdeu a força e o equilíbrio, o derrubando e caindo por cima dele, fazendo um barulho enorme e quebrando seu abajur.

Ela não conseguiu se mexer, prendeu a respiração outra vez e esperou que Cesário aparecesse, sonolento e pronto para lhe dar uma surra com direito a gritos que acordariam o tal bêbado. Nada aconteceu e Juliana expirou pela boca outra vez, com grande alívio.

Levantando de cima do seu “hóspede”, ela percebeu que o coração estava acelerado e as pernas tremiam. Era algo que não tinha sentido por nenhum outro homem antes, nem pelos garotos do colégio. Sentiu-se como uma mocinha dos romances de banca de jornal que lia nos intervalos das aulas, nos braços de um homem galante e romântico, com aquele corpo do homem que jazia no chão do seu quarto. Teve vontade de beijá-lo, mas desistiu a poucos milímetros, quando sentiu o bafo de cachaça. Aguentaria aquela noite?

Como não podia levá-lo a tomar um banho de verdade, providenciou balde com água, sabão, alguns paninhos e uma toalha em seu guarda-roupa para dar um banho improvisado. Abriu a camisa suada e começou a trabalhar no “projeto limpeza”. Sempre checando se ele ainda respirava.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s