Minutos de motivação espiritual

Os últimos dias foram meio complicados para mim. Andei fazendo alguns esforços para manter minhas energias e ânimo lá no alto, mas uma série de problemas práticos combinados acabou me deixando muito triste, chorosa, e com vontade de desistir de tanta coisa…

Mas hoje, enquanto procurava blocos de notas em branco, uma anotação de 14 de Agosto do ano passado me chamou a atenção. Era o resumo de uma pregação que ouvi na igreja naquele dia, no culto noturno; e ainda hoje eu lembro do quanto chorei naquele dia. A mensagem era, em resumo:

Manter o foco e não desesperar.

O texto base era Gênesis 37.23-36. Não lembro quem foi o pastor, mas alguns dos pontos que ele havia apresentado eu anotei no bloco:

– As aparências enganam;

– Deus está no controle de todas as situações;

– Não se precipite! Deus responde às orações no tempo e na forma dEle;

– 90% das coisas que nos afligem jamais ocorrem;

– Não ponha o ponto final onde Deus não põe o ponto final;

– Quando não sei mais o que fazer, Deus está agindo;

– Algumas pessoas/coisas precisam ir para que outras (extraordinárias!) possam vir.

Naquela noite, ouvindo essas e outras palavras, chorei como uma criança e não conseguia me conter. Foi um estalo: no meio do caos existe esperança e a gente vai sair dessa, é só manter o foco e não se desesperar! Ou seja, não jogar tudo pela janela antes de esgotados todos os recursos. E não sei você, mas eu acredito que quando algo é para ser nosso, mesmo quando os recursos ao meu nosso alcance acabam, Deus se encarrega de tudo. E isso me deu um alívio tão grande…

Hoje, lendo os tópicos, me senti aliviada novamente. Não chorei como da primeira vez, mas a minha raiva por tanta coisa estar dando errado abrandou. Talvez alguém se depare com esse texto e o receba também como palavras de esperança para não desesperar.

Ouvindo: João Senise

Olá, pessoal! Hoje gostaria de compartilhar mais uma descoberta no fantástico mundo da música brasileira: o cantor João Senise. Na verdade, a ideia era fazer um post sobre o álbum mais recente dele, Influência do Jazz; mas depois de ouvir todo o material disponível via streaming, mudei de ideia e o post vai ser mais genérico.

João Senise tem 28 anos e é filho do flautista e saxofonista Mauro Senise e da cantora e produtora Eliana Peranzetta. Como geralmente no mundo da música uma coisa puxa a outra, descobri a discografia do João quando estava escrevendo o post sobre o último álbum do Edu Lobo, Dos Navegantes.

Até agora, João Senise tem quatro álbums lançados: Just in Time; Celebrando Sinatra ao vivo; Abre Alas – canções de Ivan Lins e o mais recente, Influência do Jazz. Fui ouvindo os álbuns de trás pra frente; e Influência do Jazz já me impressionou positivamente. Primeiro por causa da seleção de músicas, segundo pelas participações especialíssimas que permeiam o disco, como Joyce Moreno, Romero Lubambo, Wanda Sá… É um bom disco, mas tem um muito melhor, na minha opinião: Abre Alas – canções de Ivan Lins. Foi ouvindo esse disco que me apaixonei real oficial pela voz do João Senise. Minhas faixas favoritas: Bilhete (que já foi para a lista de músicas que eu repito mil vezes e pretendo tocar em breve) e Art of survival. Ah, o álbum conta ainda com a participação do próprio Ivan Lins em duas músicas!

O terceiro favorito é o Just in time, que tem mais standards de jazz mesmo, e é o álbum de estreia do João Senise. Tanto ele quanto o Celebrando Sinatra tem essa pegada mais “jazz tradicional” mesmo, já pelas músicas escolhidas. João Senise é um cantor jovem, que ainda vai produzir muita coisa bacana. Vamos ficar com o radar bem ligado para os próximos lançamentos do cantor!

Assisti: “Mulher Maravilha”

O sábado foi dedicado a passar uma parte da manhã em companhia de uma turma muito boa no Cinema Costa Dourada, para uma sessão especial de Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017)! Junto com as blogueiras Elãine Tereza e Kárcia França assisti ao filme, que estreou dia 1º de Junho. Postei algumas fotos do evento no meu instagram (@evanaizabely) e também nos perfis da Kárcia e da Elãine. Aliás, muito obrigada e parabéns ao Costa Dourada pela belíssima organização do evento e obrigada Elãine pelo convite! ^_^ Mas agora vamos ao filme…

O plot de Mulher Maravilha, dirigido por Patty Jenkins, é o surgimento da heroína; ou seja, como a amazona Diana (Gal Gadot) tornou-se a Mulher Maravilha, saindo de Temíssera, da ilha onde só há mulheres guerreiras, amazonas; para ir encarar o mundo desconhecido da Europa em fins de Segunda Guerra Mundial. Sua missão? Encontrar o deus da guerra, Ares, e destruí-lo.

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O roteiro, escrito por Allan Heinberg, aborda o desenvolvimento da futura super heroína desde sua infância; o que foi super acertado, principalmente na escolha do elenco. A Diana criança já é para mim uma das melhores personagens mirins do cinema recente, e em boa parte isso se deve ao bom trabalho feito com a atriz mirim Lilly Aspell.

Treinada com esmero por Antiope (Robin Wright), Diana começa a revelar aos poucos a força que tem e enfim, já adulta, encontra a oportunidade de lutar para acabar com a guerra ao conhecer Steve (Chris Pine), o primeiro homem com quem Diana tem contato, ainda na ilha em que vive. É com ele que ela vai para o mundo dos homens e começa a sua luta, que a torna na Mulher Maravilha que todos conhecemos.

Dois pontos positivos do roteiro, que eu queria apontar em primeiro lugar: a abordagem feita da história mundial, que considerei acertada; tanto ao falar da história antiga, citando deuses gregos; quanto ao mencionar páginas da era moderna (a Segunda Guerra Mundial).

Como era de se esperar, o longa é repleto de momentos emocionantes, como a hora em que a Mulher Maravilha surge pela primeira vez como a heroína e vai para o campo de batalha (o público, formado quase que totalmente de mulheres na sessão aplaudiu várias vezes; eu confesso que chorei outras tantas…). Também tem um pouco de humor, especificamente no primeiro terço do filme, e o romance, que tem um peso muito pequeno no quadro geral. Aqui, a mulher não está como indefesa, mas como heroína que se impõe para cumprir seu propósito; e ao mesmo tempo o homem não é colocado em cena como um sujeito aparvalhado e dependente. Diana e Steve atuam em cooperação em parte das batalhas, isso achei interessante observar.

mulher maravilha2

A ação do filme é, naturalmente, pontuada pela trilha sonora; e isso eu tenho de admitir: embora eu não seja muito fã de filmes de super heróis (exceção feita a Batman e Mulher Maravilha), as músicas desses filmes são todas muito boas e, obviamente, impactantes. Enquanto escrevo esse post, estou ouvindo a trilha sonora oficial, disponível no Spotify – só procurar Wonder Woman ou Rupert Gregson-Williams, o compositor da trilha.

Merecidamente, acredito que Mulher Maravilha será o filme de maior bilheteria desse ano no circuito comercial. Geralmente eu sou meio do contra, mas na minha opinião vai ser difícil algum outro blockbuster superar este em 2017. Quem ainda não viu, vá assistir e leva a turma junto.

E NÃO É SÓ ISSO!! Tem mais um texto meu sobre Mulher Maravilha, no ar no Superela. Clique aqui e leia! 😉

Ouvindo: “Dos Navegantes”, de Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise

Depois de postar o texto sobre Visions of Dawn, fiquei meio que viciada no disco e passei a ouvi-lo em quase todas as oportunidades que tinha. Depois de tanto ouvir o álbum, acabei lembrando de outro disco que está na minha lista de álbuns viciantes: Missa Breve, do Edu Lobo. Fui procurá-lo para ouvir, mas acabei trombando no último lançamento do Edu Lobo, em parceria com o guitarrista Romero Lubambo e o flautista Mauro Senise. O título é Dos Navegantes. Mudei de ideia na hora e fui ouvir o novo lançamento, feliz da vida (e meio chateada que meu radar de novidades parece não estar funcionando lá muito bem… Tô precisando calibrar o radar, tipo assim, pra ontem.

Antes de começar a falar de Dos Navegantes, informações rápidas sobre os músicos. Edu Lobo é cantor, compositor, muito conhecido pelas parcerias com Chico Buarque, que resultaram em pérolas como O Grande Circo MísticoCambaio. Romero Lubambo é um dos melhores guitarristas que tive a graça de (re)descobrir recentemente – tinha uma música dele num CD que eu tinha copiado de uns parentes do Rio quando eu tinha uns 16, 17 anos (a música era Re:Joyce); e depois achei Lua do Arpoador, parceria dele e Leny Andrade. Mauro Senise é o que conheço menos – na verdade só conheci graças a Dos Navegantesinstrumentista premiado tanto pelos trabalhos solo como pelas gravações junto com o sexteto Cama de Gato, já atuou em parceria com vários músicos reconhecidíssimos, como Raul Mascarenhas, Gilson Peranzetta e os próprios Lubambo e Lobo, em ocasiões anteriores.

Quando vi o título do álbum, já imaginei que seria um trabalho de revisitação de músicas antigas do Edu Lobo. Dos Navegantes é também o título de uma das faixas de Cambaio, de 1993. O trio, como “navegantes calejados” (como bem disse o release no site do selo Biscoito Fino) inicia a viagem no final dos anos 60 – a música A morte de Zambi é da trilha da peça Arena conta Zumbi, composta por Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri. Continua nos anos 70, passando pelas belíssimas Cidade Nova (do álbum Cantiga de Longe, de 1970); ToadaConsiderando e Gingado dobrado, essas três do álbum Limite das águas (1976). A propósito, a versão 2017 de Toada quase me faz chorar, de tão linda.

Dos anos 80, são selecionadas músicas de O Grande Circo MísticoValsa dos Clowns, O Circo Místico – toda vez que escuto essa música choro, e ontem não foi diferente (mais alguém aí se emociona muito com essa música? toca aqui o/ ) – e Na ilha de Lia, no barco de Rosa, de 1988.

Os anos 90 são representados pela faixa-título; e finalmente a única canção inédita do álbum: Noturna. Ou seja, Dos Navegantes é um passeio por praticamente meio século de música, versão revista, atualizada e beirando a perfeição. Até agora, melhor lançamento do ano!

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Assistindo: “Unbreakable Kimmy Schmidt”, season 3

Esperei pela estreia da terceira temporada da série com muita animação, porque Unbreakable Kimmy Schmidt logo se tornou uma das minhas séries favoritas. Praticamente não há um personagem que eu não goste, e as duas primeiras temporadas tiveram momentos impagáveis, como o clipe de Peeno noir e todas as aparições do reverendo Richard Wayne Gary Wayne (Jon Hamm). As expectativas eram as melhores possíveis.

Então a estreia aconteceu dia 19 de Maio e até então não rolou nada de muito extraordinário nos episódios da série que eu assisti até agora (vi 7 dos 13 episódio, mas alguns pontos me chamaram a atenção.

1) Jon Hamm continua se destacando positivamente, mesmo aparecendo pouco (até agora só apareceu em um episódio, e nos demais o reverendo é apenas mencionado).

2) Tituss (Tituss Burgees) teve alguns momentos de soltar a voz. Nem tudo achei engraçado, claro. A paródia de Lemonade foi bem legal e tudo; e o começo do episódio em que ele faz uma série de backing vocals para músicas com letras absurdas. Mas não gostei de Boobs in California.

3) Agora o texto tem uma pegada mais política do que nas temporadas passadas, com a participação de Lilian (Carol Kane) como vereadora e cenas com viés feminista – inclusive tem um episódio intitulado Kimmy é feminista!, no qual ela vai para a faculdade e ao se relacionar de forma mais próxima com as novas colegas, percebe que o discurso feminista delas ainda não é amadurecido.

4) Também é dada uma ênfase extra à interferência que traumas podem causar na vida futura da pessoa. Gretchen (Lauren Adams), uma das mulheres-toupeira, não consegue se libertar do passado e acaba criando a própria seita, sequestrando alguns garotos para servi-la. Obviamente o tiro sai pela culatra (e é aí que começa a existir uma discussão sobre questões feministas, que vai se aprofundando no episódio seguinte). Já Kimmy consegue a bolsa integral na universidade graças a uma habilidade física conquistada nos anos de bunker, mas ao mesmo tempo tem dificuldade de se relacionar com pessoas que tenham inclinação religiosa.

5) Com a entrada de Lilian para a política, entrou também um personagem que tenho curtido bastante, o Artie (Peter Riegert), dono da rede de mercados naturais. Simpatizei mesmo, desde a primeira aparição.

6) Já a trama de Jacqueline (Jane Krakowski) eu tô achando chata. Não é por ela, mas pelo núcleo da família em que ela se envolveu. Tudo chato, do marido dela (Russ, interpretado por David Cross) ao cunhado bonitão (Duke, por Josh Charles).

Então, pela primeira vez encontrei personagens chatos em Unbreakable Kimmy Schmidt. Mas mesmo assim, estou curtindo acompanhar e tenho me divertido com os episódios. Só falta ter um tempo extra (e internet estável, claro!) para concluir a temporada.

Ouvindo: “Palavra e som”, de Joyce

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Imagem: Biscoito Fino

E temos um álbum novinho em folha, só com inéditas da Joyce! 👏👏👏👏👏

(Ou seja, parece que só vai dar ela nesse blog pelos próximos dias…)

Palavra e som foi disponibilizado recentemente nas plataformas de streaming e também, obviamente, também está à venda nas melhores lojas do ramo. Foi lançado dia 19 de maio, dia do aniversário dessa que vos escreve (que presente pra mim, hein?) Tem 13 faixas e a primeira coisa que me chamou a atenção foi a arte da capa, que é bem diferente dos últimos álbuns  (achei as capas de Slow Music e Tudo bem parecidas, por exemplo). É uma ilustração em azul + tons terrosos, representando a artista e seu violão.

Sobre a tracklist agora: diferente dos discos anteriores da Joyce, demorei um pouco a curtir. A faixa de abertura (Mistério no samba) não me fisgou de imediato. Só depois da segunda audição é que comecei a achar o samba interessante. Mas lembrem-se: estamos falando da minha cantora favorita, e logo Palavra e som me mostraria o seu brilho.

A segunda faixa, a bossa Humaitá, traz uma visão um pouco diferente do Rio, vista de um ponto mais retirado da “ferveção” da zona sul ou da zona norte da cidade. Segue um trecho da letra da canção:

“Lá embaixo a cidade rugindo, rosnando, latindo pra quem se arriscar
Lá embaixo é preciso querer ficar.
Cidade que é uma maravilha, que é mãe e que é filha de quem mora lá
e eu sei, porque nela plantei meu lar…

[…]

Na feia beleza que brota de tudo o que toca os humanos de lá
Por isso eu me escondo no Humaitá
Meu jardim secreto, meu canto dileto, silêncio no verde se faz (…)

Mar e lua é uma valsa lindinha, com uma letra bem poética. Bonita mesmo! Já Mingus, Miles e Coltrane não é tão inédita assim para quem acompanha a discografia de Joyce… Ela também está em Cool, álbum contendo várias releituras de standards de jazz; e que foi lançada apenas no mercado internacional. A diferença entre as duas versões: a de Cool não tem letra, apenas vocalizes, e achei um pouco mais suingada; enquanto a de Palavra e som tem um ritmo um pouco mais tranquilo, com uma letra que exalta uma parte da formação musical não só da Joyce, mas de muitos músicos brasileiros que fazem jazz com um toque que é só nosso. (botei as duas versões para tocar aqui, só para checar que não estou ficando doida, hahah)

Dia lindo conta com a participação de Dori Caymmi; e logo depois temos mais um samba, intitulado Sambando no apocalipse; que como o título sugere, faz menção a algumas religiões, e levanta a questão: “quem disse que é pecado sambar?”

A partir de A casa da flor, eu me apaixonei oficial e irrmediavelmente pelo disco. Vale repeat, viu? (quando comecei a escrever esse post no celular ouvi essa música umas dez vezes) Nessa música especificamente a gente consegue captar uma série de imagens de casas. Vivas como um lar tem que ser. (“tem cara de casa, parede, ladrilho, tem viço, tem brilho, tem vida, tem cor; é casa de louco de conto de fada; de sonho, de nada, é a casa da flor”).

O amor é o lobo do amor tem a letra mais arrebatadora e maravilhosa de Palavra e som. Vale repeat, parte 2. Consegui imaginar essa música como trilha sonora de um filme, uma novela – fica a dica para quem produz trilhas sonoras, Joyce Moreno deveria aparecer mais nas trilhas da nossa teledramaturgia. Saquem só esse pedacinho da letra e vejam se não tenho razão:

“O amor é imensidão
O amor nos tira o chão
O amor é devastador
É gozo e aflição
Horror e sedução
O amor é o lobo do amor
Ouve o silêncio do amor
Tão ensurdecedor
Que explode, cala e arrebenta
E a alma assustada nem tenta
Entra nas masmorras do amor
Pedindo em seu favor
Que venha a revolução

O amor sem servidão
Sem presa e sem prisão
Amor que é libertador
Amor que não diz não
Amor que é água e pão
O amor destino do amor.”

(observação 1: transcrevi a letra inteira, beijos)

(observação 2: acho que vou ali escrever umas cenas e já volto)

O poeta nasce feito é outra música que não me encheu muito os ouvidos de primeira (também, depois da porrada que é O amor é o lobo do amor…). É uma música que preciso ouvir um pouco mais para apreciar melhor. Forrobodó das meninas  é a faixa seguinte (quando li o título pensei em Forrobodó do Edu Lobo, mas uma não tem nada a ver com a outra), as personagens principais são justamente as meninas que provocam um “forrobodó”. O “forrobodó” pode ser entendido como “rebuliço”. Depois de ouvir umas três vezes, cheguei à conclusão de que a mensagem da letra é que não importa o que a gente faça, vai causar algum rebuliço, vai ter alguém pra julgar. (“lindas, tão lindas meninas, tem que ser lindas e só / tudo o que as meninas fazem sempre dá forrobodó” – trecho da letra) Então a gente continua no forrobodó #girlpower e dane-se o povo, né não?

Ave Maria serena é um primor de delicadeza, lembra um pouco romaria no interior, uma oração. A melodia traz uma sensação de paz…

Na 75 é tipo um samba de gafieira, dá vontade de dançar. E finalmente, a faixa que dá nome ao disco: Palavra e som é outro primor de delicadeza, versando sobre essa relação entre palavras e sons, que formam lindas canções. Um fechamento lindo para o disco, pura poesia.

Em geral, Palavra e som é um álbum que merece ser ouvido com calma, para absorver cada sensação que ele traz, apreciar cada pedacinho de música. A primeira audição foi via Spotify (onde você pode ouvir o álbum todo), mas já vou providenciar o disco físico, como boa fã de Joyce Moreno que sou. 😉

https://open.spotify.com/embed/album/3YhMSsDwWD2drbb7dEBNib

Ouvindo: “Visions of dawn”, de Joyce Moreno, Naná Vasconcelos e Maurício Maestro

Visions of dawn foi gravado em 1976, por Joyce (que já foi tema de post aqui no blog), o percussionista Naná Vasconcelos e Maurício Maestro, que é mais conhecido por ser integrante do Boca Livre). O registro só veio à público muito tempo depois, mais precisamente em 2009, pela Far Out Recordings; e na divulgação, referiam-se ao álbum como um trabalho “psicodélico” de Joyce.

Das gravações de Joyce, essa foi a que ouvi menos, por ter sido a que me chamou menos a atenção. Mas por esses dias, trombei com o álbum de novo e resolvi ouvi-lo com mais atenção.

As músicas BananaClareanaNacional KidTudo Bonito seriam conhecidas do público brasileiro entre os anos 80 e 2000: As duas primeiras no clássico Feminina (1980), Nacional Kid no disco Tardes Cariocas (1984), que quase ninguém conhece, mas que foi reeditado no box Anos 80, lançado ano passado; e Tudo bonito é do álbum de mesmo nome, lançado em 2000. As demais canções da tracklist não fazem parte de nenhuma outra gravação posterior que tenha sido lançada, seja em estúdio ou ao vivo.

Clareana, por exemplo, ficou muito mais delicada do que a versão de 80. Banana não tem muita diferença. Talvez as músicas mais psicodélicas, dentro do meu parco entendimento sobre o assunto, sejam Tudo bonito, Suite 1- Memórias do Porvir/ 2- Visões do amanhecer e Jardim dos deuses. A sonoridade que a gente experimenta ao ouvir essas músicas é como se a gente participasse de um sonho. Ou de uma trip mental, motivada por qualquer coisa aí.

Numa dessas lembrei de dar uma relida no livro da Joyce (Fotografei você na minha rolleyflex, publicado em 1997 pela MultiMais Editorial), para ver se tinha algo que remetesse exatamente à gravação desse disco. Não tinha, mas tem uma passagem sobre 1970 no México que eu de alguma forma conectei à Visions of dawn:

O corredor do hotel – estávamos todos no mesmo andar – virou um formigueiro, um zunzum de gente indo e vindo a noite inteira, entrando e saindo dos quartos não só nosso grupo, como amigos que já tínhamos na cidade, e que apareceram para assistir à nossa trip. E que trip! Em cada quarto que se entrasse, havia um happening diferente. No de Naná, por exemplo, estava sendo celebrada uma espécie de missa afrobrasileira, uma cerimônia ao mesmo tempo profana e religiosa para os erês invisíveis que, segundo ele, moravam ali. Uma pequena plateia de americanos assistia em respeitoso silêncio. Entrei, comecei a cantar a Bachiana nº 5, com o berimbau de Naná em contraponto, numa performance que mais tarde tentaríamos em vão repetir. Nunca mais deu certo, é claro, se é que dera naquela noite. […] Outros de nós tinham alucinações visuais e sonoras, entremeadas por sessões de vômitos e mal estar, conforme a disposição de cada um. Aconteceu de tudo, instrumentos quebrados, corações partidos, amores desfeitos, pedidos de casamento, deslumbres sensoriais, sonhos e pesadelos. (pp 71-72 – grifo meu/texto transcrito de acordo com a nova ortografia)

Aí a gente pega a letra de Jardim dos deuses:

Eu já visitei
O jardim dos deuses
mais de uma vez
Em busca do prazer e da paz
Mas tudo que eu encontrei
Desapareceu depois que eu voltei
E eu nunca me esqueci
Do perfume do jardim

Mas não vou ficar
Triste na lembrança do que passou
Vou encontrar o amor aqui mesmo
E se um dia eu voltar
Ao jardim dos deuses uma vez mais
Não quero nem saber
Nada me fará sair de lá.

Depois de transcrever a letra e ouvir com atenção, acho que posso dizer que aprendi um pouco sobre psicodelia.

Mas a minha música favorita de Visions of dawn é de longe Suite 3 – Carnavalzinho. É uma música curtinha, mas é muito feliz. ^_^ Enquanto eu escrevo esse post, ouvi essa música uma vinte vezes, hahah.

Visions of dawn pode ser considerado um tesouro da música brasileira. O melhor dele para mim é (além de Suite 3 – Carnavalzinho) ouvir outras versões de músicas que eu já conhecia, e ter outra experiência sonora. Vale a pena ouvir!