O causo do registro

Depois de 9 meses você vê o resultado de escrever e revisar o original duas vezes, finalmente o enviei para registro na Biblioteca Nacional.

Eu devia ter feito isso antes, mas queria ir ao posto estadual, que fica lá perto do parque 13 de Maio, e para isso eu precisava

  1. Faltar no trabalho;
  2. Enfrentar meus pavores de virar estatística dos assaltos a ônibus do Grande Recife. A chance seria multiplicada por 4, já que são dois busões pra ir e dois pra voltar.

Lembro de quando fui registrar meu primeiro roteiro. Paguei a taxa de R$20, e demorei a ir ao posto estadual o suficiente para a moça dizer que meu comprovante não valia mais, pois tinha passado muito do prazo. E eu lá sabia que tinha prazo de validade o pagamento? No final, perdi 20 contos, pois não consegui registrar o roteiro.

Isso faz uns três anos. Desde então, não passei nem perto da Biblioteca Nacional. Escrevendo e guardando… Até que pensei “cara, preciso publicar esses negócios”. O primeiro da fila seria exatamente o que escrevi durante o NaNoWriMo (aliás, será que eu consigo participar esse ano e bato as 50.000 palavras? Oremos). Mas dessa vez, eu resolvi fazer algo de diferente e em vez de me abalar até Recife, resolvi enviar pelo correio direto para a EDA (Escritório de Direitos Autorais), no Rio de Janeiro.

Segui as instruções do site da BN, que diz:

Caso o requerente não possa se dirigir pessoalmente à Sede ou a um dos Postos Estaduais do EDA, a DOCUMENTAÇÃO COMPLETA (ver Exigências para Registro ou Averbação) deverá ser enviada por SEDEX ou Carta Registrada para a sede do EDA no Rio de Janeiro. Neste caso, não será possível encaminhar o recebido de entrega de documentos com o respectivo número de protocolo.  O requerente deve aguardar comunicado, via Correios, com informações sobre a solicitação encaminhada, observando os prazos estabelecidos na norma vigente.

A documentação é: formulário de registro ou averbação (que tem no site para baixar), cópia impressa do texto que você deseja registrar (numerada, rubricada e sem encadernar, o que foi outro erro que cometi – encadernei o roteiro da vez que não consegui fazer o registro), cópia de identidade, CPF, comprovante de residência e, claro, o comprovante de pagamento da GRU. A gente paga e não espera muito para enviar a documentação do registro.

Em menos de 24 horas depois do pagamento, fui à agência dos Correios perto do trabalho para enviar meu manuscrito para a BN.

Expectativa: enviar como carta registrada.

Realidade:

ATENDENTE: Olha, para enviar como carta registrada tem que pesar até 500 gramas. O seu deu 615 gramas.

Olhei na balança e pensei ixi, que papel pesado da gota serena! São só 120 páginas!

ATENDENTE: A opção é mandar por SEDEX.

EU: PAC não?

ATENDENTE: PAC só se for encomenda.

EU: Tá certo… Se não der, eu vou ali sacar um dinheiro pra pagar.

ATENDENTE: A gente aceita cartão de crédito e débito.

EU: Ah, bom!

ATENDENTE: Tem duas opções pra você. O SEDEX 10, que chega amanhã, custa 120 reais. O SEDEX normal, que chega lá em 8 dias úteis, custa 60.

EU: Vai o comum, e no cartão de crédito.

ATENDENTE: Olha, esse material tem algum valor material?

EU: Não, só intelectual mesmo. É original de um livro.

ATENDENTE: Eu pergunto só porque pode ser documento autenticado, alguma coisa assim, e carga no Rio de Janeiro é meio visada, sabe?* Se fosse assim, você declarava; aí se acontecesse de ele ser extraviado, você recebia o que pagou e ainda o valor do objeto.

(*Bem, foi o que ele disse, né?)

EU: Entendi. Mas qualquer coisa, se ele sumir, eu imprimo de novo e mando. De toda forma, espero que chegue direitinho.

Nos despedimos e voltei para o trabalho, mas não sem antes fazer uma pausa para comprar uma barra de chocolate para dividir com as colegas.

Próximos passos pós-registro (depois que eu voltar da viagem):

  • escolher a capa do livro
  • resolver a publicação (provavelmente vai ser Amazon de novo, já que tenho dois textos publicados via Kindle Direct Publishing; mas tô numas de mandar para algumas editoras, só para ver que bicho dá)

 

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Meu Journal no Evernote

Por toda a vida, mais precisamente a vida que comecei a ter quando comecei a ir pra escola e, mais adiante, a trabalhar fora, fui adepta das agendas e caderninhos para tudo. Infelizmente, minhas agendas fofas (sempre fiz questão de que fossem fofas e coloridas) não foram totalmente preenchidas. Ou seja, eu tinha um desejo de ser organizada, mas não conseguia sê-lo de fato por muito tempo. Talvez por ter justamente vários cadernos para dar conta:

  • Uma agenda/diário;
  • Um caderno para anotar as ideias que tinha, trechos de roteiros e tal;
  • Um caderno para planejamento de aula;
  • Um caderno para estudar o idioma que eu estivesse estudando.

Quando deixei de dar aulas em curso de idiomas e passei a ser funcionária pública que não está em sala de aula em 99,9% do tempo, fiquei um pouco mais obcecada com organização e comecei a usar o Evernote, junto com mais uns dois ou três cadernos ou blocos de notas para registrar reuniões, projetos e devaneios da minha cabeça que surgiam em horário comercial. Eu tinha duas contas no Evernote: uma só para coisas pessoais, tipo contas pagas, acompanhamento médico e as melhores cartinhas de alunos que eu recebia na época em que ensinava crianças; e outra para digitalizar documentos do trabalho.

Não funcionou muito bem. Acabei largando mão das duas contas e não digitalizando nada. Como veem, disorganized as hell, mas eu não desisto!

Recentemente, decidi me aprofundar em duas coisas que podem me ajudar: o bullet journal e o método GTD. Comprei o e-book de A arte de fazer acontecer, do David Allen (até agora li o total de duas páginas – o prefácio) e andei lendo alguns posts de pessoas que usam o BuJo para a vida, como a Maki do Desancorando. mas não cheguei a iniciar um journal, estava só lendo e colhendo inspiração para um dia começar. Até que me caiu na caixa de entrada da minha conta de e-mail do trabalho uma newsletter do Evernote com um texto sobre como usar o método no Evernote e eu pensei “agora vai!”

Foi aí que criei o meu “BuJo eletrônico”

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Criei um caderno e dentro dele vou colocando as notas, como se fossem páginas mesmo. Cada nota equivale a uma sessão que eu gostaria de colocar no bullet journal analógico – que ainda não tenho, mas que poderá ser uma realidade em breve, ou não. Então até agora temos:

  • Planejamento mensal: onde eu jogo todos os compromissos que já estão marcados para aquele mês. É uma nota que preencho antes do mês em questão começar, geralmente no último dia.
  • Planejamento diário: registro de tarefas e compromissos, dia a dia. Provavelmente vou deixar de usar o mensal e ficar só com o diário, alocando os compromissos já agendados no dia certo.
  • Emoções: tô feliz? Tô triste? Irritada? Com preguiça? Vou anotando tudo, dia a dia, sobre como estou me sentindo. Desabafo mesmo. Tem me ajudado um tantão a fazer uma autoanálise e perceber padrões de comportamento, gatilhos de raiva ou tristeza, etc.
  • Alimentação: faz 11 meses que iniciei a reeducação alimentar, e nesses últimos dois meses com o BuJo eletrônico, estou conseguindo fazer com regularidade o registro de tudo o que como, para saber quando estou realmente jacando e também para me tranquilizar quando acho que estou comendo muita besteira quando, na verdade, estou com uma alimentação variada e equilibrada.
  • Sonhos: volta e meia, eu acordo com lembranças bem vívidas dos meus sonhos e preciso anotá-los em algum lugar. Então, antes que eu esqueça, recorro ao Evernote e registro tudo o que eu lembrar. Eu tinha esse hábito de anotar sonhos bizarros no antigo blog, e também no meu diário de papel, que comecei na época da terapia. (até parece que faz muito tempo, mas ó, foi ano passado).
  • Livros, séries, filmes: uma nota separada para cada um. Até agora só livros e séries têm registro, ou seja, tô ruinzona de ver filme… Na verdade, bem ruim de ver série também, mas os livros estão de vento em popa. Vou ultrapassar a meta do ano que coloquei no Goodreads facinho, facinho.
  • Gratidão: um espacinho para agradecer por coisas grandes e pequenas que acontecem no dia – e para lembrar que muita coisa boa acontece na vida.
  • Aniversários: essa é uma sessão que preciso organizar melhor, para evitar depender do Facebook para mandar mensagem para algumas pessoas (tô tentando me livrar do ranço do Face, mas é uma rede que nem me anima muito, confesso)
  • Ciclo menstrual: deixei de usar o Clue para experimentar fazer esse acompanhamento com uma nota no Evernote. Parece mais trabalhoso, mas vale a pena tentar e deixar tudo num espaço só, sem depender de mil apps para tudo.
  • Insights: tudo quanto é ideia para algum projeto futuro, vai parar nessa nota. Já registrei perfil de personagem, projetos profissionais, já tem de tudo lá dentro.
  • Future log: aí vão os planos mais remotos, tudo o que é “um dia/talvez”.
  • Habit tracker: no momento tenho três, que são os hábitos que tenho buscado manter com regularidade no meu cotidiano. Um é para a meditação, outro para estudar violão e o mais recente, para escrever um roteiro novo, que agora estou chamando de Outra vida (até encontrar um título melhor, é esse mesmo; se bem que esse é melhor que o anterior, que não compartilharei por achar medonho, ruim mesmo).

O habit tracker é, para mim, a melhor ferramenta que tem! Graças a ela, tenho me animado mais a estudar, e vejo resultados. Minhas aulas de violão que o digam! Também é um jeito de driblar a crise criativa, que na verdade se chama falta de organização galopante. Tenho algumas dezenas de ideias para desenvolver, e não consigo concluir propriamente nenhuma delas por pura falta de método. Então o que fiz? Criei a nota com várias caixinhas para “ticar” (adoro essa ferramenta), escolhi um projeto literário e vou ficar com ele até terminar. Isso não impede que eu anote ideias para os outros, é para isso que tem a nota dos insights, mas o foco aqui é não desistir de escrever por qualquer dificuldade ou preguiça. O que ainda está “falhando” um pouco é o controle financeiro, mas vou lembrar de fazer isso. Felizmente, tem o app do banco para registrar todas as contas pagas e gastos feitos. 🙂

Parece meio complexo, intricado, né? Mas na verdade, a intenção não é entulhar meu dia de atividades. Muito pelo contrário: eu já tô correndo demais e o resultado é que estou escrevendo esse post porque estava à beira de um colapso nervoso e precisei meter o pé no freio. Com essa agenda, consigo ter uma visão do meu dia a dia, e evito (ou pelo menos tento) não dar um passo maior do que a perna.

“Conservatório” no Kindle

O amor pela música, em especial pelo piano, é o que move a jovem Lídice desde a mais tenra idade. Devido ao seu talento extraordinário, é considerada uma pessoa muito especial, principalmente por seu pai e seu professor de música. Mas ela também é alvo da inveja de suas irmãs mais novas, que, sentindo-se injustiçadas, almejam todo o afeto e atenção que não lhes é devotado. Paixões avassaladoras e rancores acumulados acabam por mudar a vida de toda uma família e a rotina do tradicional Conservatório Romanoviano de Música.

Esta é a sinopse da minha novela, intitulada Conservatório. Está – pelo menos por enquanto – disponível apenas em formato e-book, e de graça para quem tem o Kindle Unlimited! Esta estória foi escrita entre 2011 e 2012 e é uma das minhas tramas recentes preferidas. Esteve por um tempo publicada no Wattpad, e teve um feedback bem legal. ❤ Agora, está aí, na Amazon para todos vocês.

Quem gosta de ler, chega junto!

O que a música significa para mim

Como já deve ter ficado bem claro para quem lê esse blog (e para quem me conhece desde pequena), música é algo muito importante para mim. Eu diria que é um hobby que levo muitíssimo a sério. Canto em coral, estou aprendendo um instrumento (já de olho nos próximos), trabalho melhor ouvindo música, o Spotify é de longe o aplicativo mais usado no meu celular, já colecionei fitas K-7, e tenho mania de criar trilha sonora pra tudo.

Lembro de quando escrevi minha primeira novela, ainda criança. Eu escrevia em silêncio, no quarto/biblioteca, usando uma Olivetti. Depois de alguns capítulos escritos (não lembro se já tinha terminado), eu resolvi fuçar nos CDs da casa e selecionei algumas músicas que combinariam com a minha história, como se fosse a trilha sonora de uma novela de TV. Foi minha primeira mixtape. Algum tempo depois, reaproveitei a fita para gravar coisas na rádio e lá se foi minha primeira trilha sonora…

Cresci, descobri a Internet, fiz amigos e resolvi me aventurar em roteiros que jamais foram filmados, mas que divertiram muita gente nas comunidades do Orkut, com as webnovelas. E obviamente, tinha trilha sonora! Mas, diferente do que fiz na infância, dessa vez eu escolhia a música antes de começar a escrever. Até hoje tenho esses mixes registrados em CD (ou digitalizados no HD externo, porque me desfiz de muitos CDs numa faxina) e imediatamente ligo as músicas (ou pelo menos a maioria) àqueles personagens. É bem legal; e inclusive acho que alguns amigos meus passaram a conhecer alguns músicos que hoje estão fazendo o maior sucesso (e com músicas em trilhas de novelas de verdade) graças a minha seleção (por favor, meus amigos da época do Orkut que eventualmente lerem esse texto, deixem eu continuar acreditando que vocês conheceram Filipe Catto porque coloquei Ascendente em Câncer na mix de O capitão fracasso! ^_^ – aliás, acho que perdi os capítulos dessa quase todos, o que é uma pena, eu gostava…)

Praticamente todos os textos de ficção que tenho escrito ultimamente têm alguma ligação com música. Ou têm uma trilha sonora cuidadosamente escolhida (e que ouço à exaustão enquanto escrevo) ou porque os personagens contidos naqueles universos são músicos.  Às vezes eu procuro, outras vezes a música cai no meu colo enquanto estou escrevendo (as mixes do Spotify ajudam muito nisso). De toda forma, quando eu acho a trilha sonora, fica até mais fácil mergulhar nas emoções daquele personagem.  É como se finalmente eu tivesse encontrado o coração dele, e me conectado (isso é tão bonito, gente!), e as emoções daquela pessoa que só existe dentro de mim transbordam de alguma forma.

Às vezes é mais intenso, às vezes não muito, mas é sempre muito bonito. Falei no post anterior que estou apaixonada pelo álbum Frogtown, do Anthony Wilson, né? Pois: estava eu muito tranquilinha ouvindo o álbum no Spotify pela enésima vez quando começou Arcadia e eu tive uns flashes de uma personagem que eu havia criado há alguns anos, mas não tinha desenvolvido sua história. Só tinha um outline do que seria. Aconteceu a mesma coisa com Downtown Abbey. Senti, mas não escrevi na hora, fui ver a novela e depois dormir. Mas acordei com essas duas músicas na cabeça. O que fiz? Depois de fazer a prática de violão do dia, peguei o laptop, o celular, abri o Spotify e o Word e saiu uma cena, um pedacinho da história que ainda está por ser desenvolvida (já tem vários pedacinhos escritos há vários meses tanto em formato proseado como em roteiro, tá tipo um Frankenstein, mas depois a gente arruma e faz uma coisa só). No final eu chorei. Eu estava enxergando como a Laura (uma das personagens) enxergava, sentindo o que ela sentia; foi forte e bonito.

Ainda vou desenvolver o resto da história (que nem título definido tem ainda), mas precisava compartilhar o tanto de feliz e encantada que eu estou. É como se eu tivesse começado tudo de novo hoje, do zero. Faz algum tempo que ando ruminando entre uma ideia e outra, sem concluir. Tenho sido prolífica aqui no blog, no Superela, mas sair um texto fictício anda difícil, por mais que os personagens passeiem pela minha mente e queiram sair, e às vezes até ensaiem isso. Ter tido esse insight e a urgência para escrever ao som de uma música me lembrou da magia que é criar e do quanto eu sou grata pelas criações dos outros, que me inspiram tanto, na arte e na vida.

O não

Ouvir um “não” é uma coisa frustrante mesmo. E é a palavra que a gente mais vai ouvir na vida. Mesmo que não seja com todas as três letras, às vezes ela pode ter mais, pode ser uma frase inteira, mas o significado é basicamente o mesmo: não, não foi dessa vez, não é você, não é pra você.

E mesmo que tentem abrandar um pouco o negócio, a dor persiste, mesmo que por uns breves instantes. É uma quebra de expectativas, afinal.

Desde ontem, quando recebi minha segunda carta (ou melhor, e-mail) de rejeição, ando pensando nisso. Foi uma mensagem curta, direta: seu texto não foi selecionado. Na verdade eu já estava meio que esperando que não fosse mesmo. Mas mesmo assim, ficou uma sensação estranha, variando entre o “que ruim, não é dessa vez que vou ser publicada” e o “eles não merecem falar comigo nem com meu anjo”. Bateu uma chateaçãozinha porque eu não ia chegar na minha página no Facebook nem aqui no blog dizendo que ia ter uma antologia com texto meu publicado. Foi a falta de uma boa notícia para dar que baixou minha energia – um pouco, mas baixou.

Comentei no Twitter. Não era minha primeira rejeição e também não será a última. Se juntar todos os #fail amorosos (que compõem a novela da minha vida afetiva, chamada *carinhosamente* de O Bofe) e as duas negativas na vida acadêmica (quando não passei na entrevista da seleção do mestrado), eu já me sentia muito escolada em levar “não” do universo. E como disse a Manu em uma aula que assisti dia desses, o “não” de hoje é o “sim” lá na frente.

Só tem algumas coisas que eu não posso fazer, se quiser que as coisas realmente aconteçam:

1. Não posso desistir de tudo.

2. Não posso achar que não sou suficiente.

3. Não posso internalizar a ideia de que ninguém me quer/aprecia, só porque um ou dois ou três (…) não quiseram.

4. Não posso deixar de acreditar – nem em mim, nem nas providências de Deus.

Isso vale tanto para minha jornada escrevendo quanto para as outras coisas da vida. Confesso que tem momentos que ando bem cética, mas ter essa postura de “deu tudo errado então vou excluir isso da minha vida” me machuca muito mais. É como se eu ficasse eternizando o “não é pra mim” na minha cabeça, sabe?

Recebi meu segundo “não”, já li gente dizendo que escrevo mal, já ouvi um mocinho dizer que não sentia nada por mim, já fui trocada, já tive projetos reprovados. Mas isso não me torna menor. Não me faz uma não-escritora, de forma alguma. Eu escrevo, sou lida em alguns veículos, então sou escritora, sim senhor, mesmo não ganhando dinheiro com isso! Posso não estar nas prateleiras das livrarias, mas estou na Amazon (Saída de Emergência (2007) e Conservatório (2012)) e ainda tenho muito texto para ser publicado no futuro. Não me faz uma mulher inamorável ou algo parecido com isso. Não me faz uma pessoa incapaz de fazer um mestrado e um doutorado – não desejo o doutorado nem lecionar em universidade, mas finalmente encontrei algo que para mim valeria a pena pesquisar, e sinto que o mestrado em algum momento vai rolar para mim. Coisas maiores e melhores virão, e eu serei uma pessoa maior e melhor – é essa crença que eu quero cultivar, mesmo nos dias em que o cenário parece meio desanimador.

Esse texto está bem parecido com o que postei no fim do mês passado sobre “manter o foco e não desesperar” porque é bem isso mesmo. No final das contas, até que recebi pouco feedback (tanto negativo, quanto positivo). Isso é um sinal de que ainda ando com receio de me lançar, mesmo depois desse tempo todo.

Tá na hora de eu jogar definitivamente esses temores fora.

Crushes musicais da semana #3

Essa semana, revisitei algumas playlists antigas, que criei para projetos criativos iniciados no ano passado e que foram abandonados por diversas razões.

Um deles foi o romance Não deu no jornal, que eu tinha até começado a postar no Wattpad, mas acabei parando (parei de escrever na plataforma, estou dando preferência ao Medium e ao blog agora). Fiquei meio sem ânimo para continuar a história de Leila e Maria Laura, mas voltar a ouvir as músicas que me embalavam a escrita deu um gás extra para começar uma nova parte da história que eu nem tinha percebido, mas já tinha passado das 80 páginas (depois que retomei a escrita, chegamos a 92, e contando). Estou novamente encantada pelas músicas e, por consequência, pela história; mas tem algumas faixas da “trilha sonora” que me encantam mais, por isso estão nesse post…

  1. To tu, to tam (Grzegorz Turnau): a letra é de Michał Zabłocki, mas sem a música composta pelo Turnau ela não seria o que é. Quando voltei a ouvi-la, depois de uns meses sem, quase chorei. Só não desmontei em lágrimas porque estava no trabalho e ia ser meio uó se debulhar em lágrimas na frente do PC com um monte de gente perguntando “o que foooi?” Mas olha, é uma das coisas mais lindas já feitas. Frase para a posteridade: wszystko runie lecz podniesie się znów (tudo se destrói, mas vai surgir outra vez)
  2. Na młodosć (Grzegorz Turnau):

    Eu casaria com esse homem só pela discografia dele. Acho que quando eu for para o show dele – em breve! – vou levar um cartazinho e passar uma vergonhazinha básica na Polônia (mentira, eu só vou pro show e talvez eu chore de emoção). Essa música é a única que consigo tocar (não muito bem, digo logo) no piano. Acho que vou adaptá-la para o violão daqui uns tempos. Vai dar um trabalhinho, mas acho que vai ficar massa.

  3. Fortune teller (Julian Lage):

    Saindo da Polônia um pouquinho, eu sou bem apegada a essa música, do último álbum do Julian Lage (Arclight, lançada ano passado). Antes do lançamento do álbum completo, essa música saiu no Spotify como single e eu passei uma semana inteira só ouvindo ela. Agora voltou para o modo repeat.

Daqui a algumas semanas, com fé em Deus e muito trabalho, vou terminar de escrever a história de Leila e Maria Laura. Aí vou dar mais um tempinho para voltar ao texto e fazer a revisão – depois, não sei se vou publicar de uma vez ou colocar capítulos no Medium. Enquanto isso, tenho que agilizar o registro de outros textos já revisados na Biblioteca Nacional para publicar mais adiante.

Assisti: “Paterson” (2016), de Jim Jarmusch

Demorei horrores para começar a escrever esse texto. Quase um mês, mas até que foi bom ter sido assim! Digamos que minhas impressões sobre o filme ficam mais “apuradas”… O lado ruim é que a gente esquece muita coisa que acontece na estória quando deixa passar muito tempo entre a exibição e o comentário, mas acho que esse não vai ser um grande problema no caso desse filme.

Paterson é um filme que fala sobre gente muito comum que tem uma veia artística; não necessariamente que viva de sua arte, mas a sua forma de ver a vida é de alguma forma impactada por aquilo que elas criam. O protagonista chama-se Paterson (Adam Driver), é motorista de ônibus da empresa Paterson e vive na cidade chamada… Paterson. Todo o filme cobre uma semana da vida de Paterson ao lado de sua companheira, Laura (Golshifteh Farahani) – daqui a pouco falo dela.

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Imagem: IMDB

A rotina dele é: acordar, tomar café da manhã, sair para trabalhar e escrever poemas antes de fazer a primeira viagem e também nos intervalos. Ele é um poeta não publicado, que não está muito aí para ser publicado e se tornar uma pessoa famosa e reconhecida. Paterson não dá grandes sinais de ser um cara frustrado com a vida que leva de trabalhar o dia inteiro, voltar para casa, dar uma volta com o cachorro e terminar seu dia tomando uma cerveja e batendo papo com o dono do bar – eventualmente com um ou outro cliente que aparece. Já Laura, sendo uma dona de casa, também tem suas aspirações: ela cria cupcakes, cortinas, inventa de aprender a tocar violão e confia no talento de Paterson. Para ela, ele deveria ser publicado, sim!

A relação do casal parece perfeita: eles se dão bem, se apoiam, tem um cachorrinho bonitinho. Ela é musa inspiradora de alguns dos seus versos; e ao mesmo tempo, ele tenta apoiá-la mesmo no que não parece ir tão bem.

Talvez você tenha lido algo sobre esse filme e pensado “eita, que filme paradão, coisa chata!” Mas Paterson tem muito o que dizer para quem lê nas entrelinhas. Os passageiros que Paterson leva e suas histórias, que dão o tom do extraordinário em um dia a dia tão comum; as novidades de Laura e seu engajamento em criar algo novo no seu universo limitado; até os posicionamentos das câmeras nas cenas que iniciam cada dia da semana dos personagens. Até a quarta-feira, o despertar deles é muito comum, visto de cima. Na quinta, o posicionamento da câmera já muda. Objetos do cotidiano e pessoas com histórias muito normais e sem grandes reviravoltas têm seus momentos de destaque durante todo o filme. O espectador é envolvido e surpreendido por algo que certamente não chamaria a atenção se não fosse uma produção tão bem feita. Para mim, a mensagem que fica do longa é que se olharmos com muita atenção, a rotina não é tão tediosa assim. Tem algo acontecendo no meio do “nada acontece” e que lugar poderia ser mais rotineiro e ao mesmo tempo mais surpreendente do que um ônibus que faz o mesmo trajeto, mas não transporta necessariamente as mesmas pessoas sempre?

Mas além desse olhar diferenciado sobre a rotina, o que mais me chamou a atenção foi o papel da poesia para “costurar” o roteiro. Os versos escritos por Paterson surgem na tela, o olhar dele sobre o comum é compartilhado com a gente e me pareceu bem familiar…

Até que esse poema foi citado em um determinado momento do filme:

I have eatenthe plumsthat were inthe iceboxand whichyou were probablysavingfor breakfastForgive methey were deliciousso sweetand so cold.png

Eu não sou muito fã de poemas, esse é um dos poucos que eu posso dizer que amo e sei de cor, de tanto que repeti mentalmente (especialmente quando como uma ameixa). E quando ouvi William Carlos Williams no filme, a ficha caiu: eu estava lembrando dos poemas que conheci graças às aulas de Literatura Inglesa na Universidade! E a menção do poeta não é gratuita, isso só descobri depois de ver o filme, enquanto pesquisava para esse post: William Carlos Williams escreveu um épico chamado Paterson, dividido em quatro livros, que a gente pode achar completo aqui. Ainda vou ler o texto completo, mas só de ler um pouco da primeira parte, ficou clara a inspiração que o livro teve da obra do Williams.

Paterson é o filme mais recente do diretor Jim Jarmusch, foi o primeiro a que eu assisti e a impressão que fica para mim é tão boa que a meta é ver toda a filmografia dele, do mais recente para o mais antigo. É um filme que recomendo fortemente, principalmente para quem gosta de filmes que fujam um pouco (ou muito) do mainstream.

E está em cartaz no Recife! Apenas uma sessão no Rosa e Silva, mas quem puder ver no feriado, fica a dica…