Meu Journal no Evernote

Por toda a vida, mais precisamente a vida que comecei a ter quando comecei a ir pra escola e, mais adiante, a trabalhar fora, fui adepta das agendas e caderninhos para tudo. Infelizmente, minhas agendas fofas (sempre fiz questão de que fossem fofas e coloridas) não foram totalmente preenchidas. Ou seja, eu tinha um desejo de ser organizada, mas não conseguia sê-lo de fato por muito tempo. Talvez por ter justamente vários cadernos para dar conta:

  • Uma agenda/diário;
  • Um caderno para anotar as ideias que tinha, trechos de roteiros e tal;
  • Um caderno para planejamento de aula;
  • Um caderno para estudar o idioma que eu estivesse estudando.

Quando deixei de dar aulas em curso de idiomas e passei a ser funcionária pública que não está em sala de aula em 99,9% do tempo, fiquei um pouco mais obcecada com organização e comecei a usar o Evernote, junto com mais uns dois ou três cadernos ou blocos de notas para registrar reuniões, projetos e devaneios da minha cabeça que surgiam em horário comercial. Eu tinha duas contas no Evernote: uma só para coisas pessoais, tipo contas pagas, acompanhamento médico e as melhores cartinhas de alunos que eu recebia na época em que ensinava crianças; e outra para digitalizar documentos do trabalho.

Não funcionou muito bem. Acabei largando mão das duas contas e não digitalizando nada. Como veem, disorganized as hell, mas eu não desisto!

Recentemente, decidi me aprofundar em duas coisas que podem me ajudar: o bullet journal e o método GTD. Comprei o e-book de A arte de fazer acontecer, do David Allen (até agora li o total de duas páginas – o prefácio) e andei lendo alguns posts de pessoas que usam o BuJo para a vida, como a Maki do Desancorando. mas não cheguei a iniciar um journal, estava só lendo e colhendo inspiração para um dia começar. Até que me caiu na caixa de entrada da minha conta de e-mail do trabalho uma newsletter do Evernote com um texto sobre como usar o método no Evernote e eu pensei “agora vai!”

Foi aí que criei o meu “BuJo eletrônico”

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Criei um caderno e dentro dele vou colocando as notas, como se fossem páginas mesmo. Cada nota equivale a uma sessão que eu gostaria de colocar no bullet journal analógico – que ainda não tenho, mas que poderá ser uma realidade em breve, ou não. Então até agora temos:

  • Planejamento mensal: onde eu jogo todos os compromissos que já estão marcados para aquele mês. É uma nota que preencho antes do mês em questão começar, geralmente no último dia.
  • Planejamento diário: registro de tarefas e compromissos, dia a dia. Provavelmente vou deixar de usar o mensal e ficar só com o diário, alocando os compromissos já agendados no dia certo.
  • Emoções: tô feliz? Tô triste? Irritada? Com preguiça? Vou anotando tudo, dia a dia, sobre como estou me sentindo. Desabafo mesmo. Tem me ajudado um tantão a fazer uma autoanálise e perceber padrões de comportamento, gatilhos de raiva ou tristeza, etc.
  • Alimentação: faz 11 meses que iniciei a reeducação alimentar, e nesses últimos dois meses com o BuJo eletrônico, estou conseguindo fazer com regularidade o registro de tudo o que como, para saber quando estou realmente jacando e também para me tranquilizar quando acho que estou comendo muita besteira quando, na verdade, estou com uma alimentação variada e equilibrada.
  • Sonhos: volta e meia, eu acordo com lembranças bem vívidas dos meus sonhos e preciso anotá-los em algum lugar. Então, antes que eu esqueça, recorro ao Evernote e registro tudo o que eu lembrar. Eu tinha esse hábito de anotar sonhos bizarros no antigo blog, e também no meu diário de papel, que comecei na época da terapia. (até parece que faz muito tempo, mas ó, foi ano passado).
  • Livros, séries, filmes: uma nota separada para cada um. Até agora só livros e séries têm registro, ou seja, tô ruinzona de ver filme… Na verdade, bem ruim de ver série também, mas os livros estão de vento em popa. Vou ultrapassar a meta do ano que coloquei no Goodreads facinho, facinho.
  • Gratidão: um espacinho para agradecer por coisas grandes e pequenas que acontecem no dia – e para lembrar que muita coisa boa acontece na vida.
  • Aniversários: essa é uma sessão que preciso organizar melhor, para evitar depender do Facebook para mandar mensagem para algumas pessoas (tô tentando me livrar do ranço do Face, mas é uma rede que nem me anima muito, confesso)
  • Ciclo menstrual: deixei de usar o Clue para experimentar fazer esse acompanhamento com uma nota no Evernote. Parece mais trabalhoso, mas vale a pena tentar e deixar tudo num espaço só, sem depender de mil apps para tudo.
  • Insights: tudo quanto é ideia para algum projeto futuro, vai parar nessa nota. Já registrei perfil de personagem, projetos profissionais, já tem de tudo lá dentro.
  • Future log: aí vão os planos mais remotos, tudo o que é “um dia/talvez”.
  • Habit tracker: no momento tenho três, que são os hábitos que tenho buscado manter com regularidade no meu cotidiano. Um é para a meditação, outro para estudar violão e o mais recente, para escrever um roteiro novo, que agora estou chamando de Outra vida (até encontrar um título melhor, é esse mesmo; se bem que esse é melhor que o anterior, que não compartilharei por achar medonho, ruim mesmo).

O habit tracker é, para mim, a melhor ferramenta que tem! Graças a ela, tenho me animado mais a estudar, e vejo resultados. Minhas aulas de violão que o digam! Também é um jeito de driblar a crise criativa, que na verdade se chama falta de organização galopante. Tenho algumas dezenas de ideias para desenvolver, e não consigo concluir propriamente nenhuma delas por pura falta de método. Então o que fiz? Criei a nota com várias caixinhas para “ticar” (adoro essa ferramenta), escolhi um projeto literário e vou ficar com ele até terminar. Isso não impede que eu anote ideias para os outros, é para isso que tem a nota dos insights, mas o foco aqui é não desistir de escrever por qualquer dificuldade ou preguiça. O que ainda está “falhando” um pouco é o controle financeiro, mas vou lembrar de fazer isso. Felizmente, tem o app do banco para registrar todas as contas pagas e gastos feitos. 🙂

Parece meio complexo, intricado, né? Mas na verdade, a intenção não é entulhar meu dia de atividades. Muito pelo contrário: eu já tô correndo demais e o resultado é que estou escrevendo esse post porque estava à beira de um colapso nervoso e precisei meter o pé no freio. Com essa agenda, consigo ter uma visão do meu dia a dia, e evito (ou pelo menos tento) não dar um passo maior do que a perna.

“Conservatório” no Kindle

O amor pela música, em especial pelo piano, é o que move a jovem Lídice desde a mais tenra idade. Devido ao seu talento extraordinário, é considerada uma pessoa muito especial, principalmente por seu pai e seu professor de música. Mas ela também é alvo da inveja de suas irmãs mais novas, que, sentindo-se injustiçadas, almejam todo o afeto e atenção que não lhes é devotado. Paixões avassaladoras e rancores acumulados acabam por mudar a vida de toda uma família e a rotina do tradicional Conservatório Romanoviano de Música.

Esta é a sinopse da minha novela, intitulada Conservatório. Está – pelo menos por enquanto – disponível apenas em formato e-book, e de graça para quem tem o Kindle Unlimited! Esta estória foi escrita entre 2011 e 2012 e é uma das minhas tramas recentes preferidas. Esteve por um tempo publicada no Wattpad, e teve um feedback bem legal. ❤ Agora, está aí, na Amazon para todos vocês.

Quem gosta de ler, chega junto!

Shonda is my life coach

Li O ano em que disse sim em uma semana e vou dizer pra vocês: um dos melhores livros que li esse ano. O tema do livro já foi amplamente divulgado: é Shonda Rhimes, roteirista e produtora, dona da Shondaland e conhecida como Shondanás por algumas pessoas, compartilhando com a gente como foi que ela aceitou o desafio de dizer “sim” para coisas que a assustavam, e o simples ato de dizer “sim” mudou toda a sua vida. Para melhor, lógico.

Como disse num áudio no grupo das amigas mais próximas no WhatsApp, Shonda é muito life coach! Além de nos inspirar a encarar situações que nos assustam e para as quais diríamos “não” sem pestanejar, ela também nos oferece reflexões interessantes sobre autoestima, feminismo, maternidade, relacionamentos (nesse ponto me identifiquei profundamente com ela), criatividade, vida profissional. Como eu falei um dia desses, não sou profunda conhecedora de Grey’s Anatomy ou qualquer outra série by Shonda Rhymes; mas ando interessada em parar um pouco para assistir às séries criadas/produzidas por ela. E o interesse aumentou quando conheci um pouco mais sobre a pessoa por trás das produções, com inseguranças semelhantes às minhas.

Sempre faço marcações das frases que acho interessantes. Dessa vez, acabei marcando páginas inteiras. E ainda quero enviar áudios lendo esses trechos que achei inspiradores para meus amigos, para eles inspirarem a turma também.

O ando em que disse sim é um daqueles livros que vou  buscar reler periodicamente, como referência. Mais uma life coach literária para a minha estante, junto com Amanda Palmer e Elizabeth Gilbert. Vale muito a pena ler!

“Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie

Voltando a falar de Americanah, agora com a leitura concluída! Esse foi um livro que li num ritmo mais lento, em parte porque estava lendo mais de um livro ao mesmo tempo (há duas semanas, eu estava em Americanah, Feliz ano velho e A room of one’s own – esse último ainda muito no começo). O que ajudou: li Americanah na versão e-book, edição 4th Estate, de Londres.

Esse é o terceiro romance da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e na época de sua publicação gerou um burburinho legal. Muita gente, inclusive eu, só soube da autora através desse romance, que é protagonizado pelos personagens Ifemelu e Obinze, nativos da Nigéria e vivendo em Lagos, a maior cidade do país (e que até 1991 foi sua capital, sendo substituída por Abuja – este blog não é só cultura, é também geografia! ^_^).

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Lagos, na Nigéria. Fonte: Gettyimages

Eu diria que Americanah é muito mais sobre Ifemelu do que sobre Obinze, seu namorado de adolescência/começo da juventude. Mas com o avanço da estória, percebi que a vivência dele é tão essencial quanto a dela, embora ocupe menos partes (de um total de 7 partes, em três ele tem protagonismo). Ambos vão buscar, em momentos diferentes de suas vidas, uma nova vida em um país estrangeiro. Ela vai primeiro para os EUA, com a perspectiva de continuar seus estudos após sucessivas greves que acontecem nas universidades nigerianas nos anos de 1990. E é dessa partida para os EUA que vem o título do romance: amigos de Ifem dizem que quando ela voltar para seu país de origem, será uma Americanah. Após algum tempo separado da namorada, é a vez dele partir, só que para a Inglaterra.

O plot se desenvolve em sua maior extensão a partir das experiências de Ifemelu no país norte-americano, onde sua tia Uju também vive com o filho Dike. É explorada a luta para se estabelecer como indivíduo nas instâncias pessoal e profissional, a descoberta das questões raciais (em uma determinada passagem após sua volta para a terra natal, Ifem comenta que ao desembarcar na Nigéria, ela deixa de ser negra. Em outras palavras, em seu país natal, os conflitos gerados pelo preconceito racial inexistem. Ao chegar aos EUA, tudo isso é descortinado aos seus olhos. Mais tarde, muitas desventuras depois, ela cria um blog anônimo no qual analisa questões raciais como uma negra não-americana. A página suscita amores e ódios, a catapulta para a fama, especificamente no meio acadêmico. Mas depois de vários anos vivendo em terras norte-americanas, ela se inquieta para voltar à Nigéria e rever tudo o que deixou para trás; incluindo o seu ex-namorado Obinze.

Uma das questões raciais do livro tem relação com a estética feminina, o que é “bonito” ou “feio”, “mais” ou “menos profissional”; e já fiz um post sobre ele há alguns dias, justamente porque foi um aspecto que me chamou a atenção de imediato, devido à minha própria vivência de transição capilar. Mas vai além disso: questões ligadas a relacionamentos inter-raciais e interculturais, política, educação, posicionamento no mercado de trabalho, são levantadas através dos posts do blog de Ifemelu (alguns posts são reproduzidos no final de alguns capítulos) e pela sua própria trajetória e dos expatriados ligados a ela, como Uju, que é uma médica que luta na primeira parte do livro para se integrar no mercado norte-americano em sua área de atuação.

As reflexões sobre raça que Americanah levanta são pertinentes e válidas tanto para quem já vem se aprofundando no tema há algum tempo como para quem não sabe basicamente nada sobre o assunto. E não apenas para a realidade norte-americana. Muitas das questões levantadas no romance são identificáveis aqui no Brasil, por exemplo, mesmo com adaptações. Mas o que me chamou a atenção de verdade foram as passagens  que apresentam Lagos nos (agora distantes) anos 90 e nos dias atuais. Muitos de nós têm um conhecimento quase nulo do que seja a Nigéria, de como seja seu povo e sua história (estenda isso para os povos africanos em geral); e embora não cubra a totalidade, porque é impossível fazer isso em um romance, é muito legal ter uma perspectiva de uma local sobre a cidade, o comportamento de seus compatriotas no que diz respeito a relacionamentos e religião, por exemplo (que não é muito diferente de nós latinos, vamos combinar). Particularmente, fiquei com vontade de conhecer Lagos! O livro contém muitas expressões em igbo (e coincidentemente, ouvi um episódio do Rookie Podcast que falou um pouco sobre adolescentes descendentes de nigerianos interessadas em aprender igbo, uma língua que vem se perdendo com o passar das gerações).

Apenas uma coisa me deixou um pouco desapontada: o final; mais precisamente o último capítulo. Não que tenha sido exatamente ruim, mas acho que poderia ter sido um pouco mais extenso, melhor explorado… Talvez seja uma implicância pessoal, já que no meu ponto de vista as nuances sociais, políticas e históricas desenvolvidas em Americanah me pareceram muito mais interessantes do que o “romance romântico” em si. Num geral, é um livro interessante, que vale a pena ler sem pressa.

Quem quiser ler o e-book em inglês, como eu fiz, segue o link! Edições em português também são fáceis de encontrar na Amazon, Saraiva ou Cultura.

“Feliz ano velho”, de Marcelo Rubens Paiva

Semana passada, concluí a leitura de Feliz ano velho, romance de estreia do Marcelo Rubens Paiva que foi publicado em 1982. Era um livro com o qual eu vinha flertando há mais ou menos um ano, e cheguei a ler o primeiro capítulo na biblioteca municipal, mas acabei adiando a leitura do livro inteiro. Bem, o levei para casa apenas muito tempo depois, e foi uma leitura rápida, de apenas três dias. Terminei de lê-lo em uma noite de sábado, num fim de semana em que eu estava particularmente fragilizada e triste (um estado de espírito que me acompanhou por duas semanas seguidas, e do qual agora posso dizer que estou me recuperando).

Mas falando do livro: Feliz ano velho tem como ponto de partida o acidente que tornou seu autor paraplégico, em dezembro de 1979; e narra o ano seguinte, de um longo período em hospitais e a volta para a casa em São Paulo, onde continuaria o processo de recuperação e adaptação à vida como deficiente físico.  Mas o livro vai além disso.

Entre as narrações do cotidiano em quartos de hospital e visitas de amigos, parentes e algumas paixões, Paiva revisita os anos de ditadura, dos quais ele mesmo foi vítima ao ter seu pai, Rubens Paiva, preso e desaparecido político (torturado, morto e cujo corpo jamais foi retornado para a família, como aconteceu com várias outras famílias na época).  Também relembra os tempos de estudante de Engenharia Agrícola na Unicamp: as paixões vividas, a tentativa de fazer carreira na música e a participação em um festival televisionado (uma das últimas tentativas de emissoras de TV de fazerem reviver o tempo dos festivais dos anos 60, onde foram projetados vários nomes famosos da música brasileira hoje).

Apesar de ser um livro que gira em torno de uma tragédia pessoal, não consigo ver sinais de autopiedade em nenhuma linha. Nem mesmo quando ele passa um Natal e um réveillon deprimentes na UTI em Campinas. A gente não sente pena do autor-personagem, também não consegue culpá-lo pelo incidente que poderia ter acontecido com qualquer um. A gente começa a torcer para que ele se dê bem, que volte à vida regular (pelo menos foi o sentimento que tive). Não é uma leitura que deixe a gente triste, ou que levante o astral. Pela linguagem empregada e pelo autor ser também personagem, a impressão que tive era que a história estava sendo contada para um amigo, depois de muitos anos dos acontecimentos narrados. E ainda tem o apelo visual, não é difícil visualizar as cenas como se fossem cenas de um filme (a propósito, há o filme baseado no livro, que foi lançado em 1987 – e eu imaginava que fosse um filme dos anos 90, ainda vou buscar assisti-lo).

O que achei muito legal nesse livro foram as referências explícitas aos anos 80, especialmente sobre a televisão. Quando Marcelo começa a ver TV no hospital, ele menciona algumas novelas; entre elas Os Gigantes, do Lauro César Muniz. O nome da novela não é citado, mas qualquer um que conheça um pouco sobre novelas vai identificar logo pelos atores principais, que são mencionados no texto. E parece que era uma unanimidade que essa novela não foi das melhores…

Além da parte referente à morte do pai durante os anos de chumbo, Feliz ano velho também traz mais referências políticas, que igualmente chamam a atenção. No hospital, Marcelo recebe visita de algumas figuras políticas, e também tem uma breve menção ao início do PT. Lendo o livro hoje, é impossível não pensar na trajetória que o PT seguiu (bem como os partidos que foram fundados depois dele), e no noticiário político de todos os dias.

Em suma, Feliz ano velho mostra que é muito mais do que um romance autobiográfico sobre um jovem que vê sua vida mudar radicalmente após um acidente. É também um breve registro de como era a vida e a política no final dos anos de 1970 e início dos de 1980.

Quem ainda não leu, pode encontrar o livro na Amazon, Cultura, Saraiva ou Estante Virtual. Ou visitar a biblioteca pública mais próxima de você. 😉

Assisti: “Paterson” (2016), de Jim Jarmusch

Demorei horrores para começar a escrever esse texto. Quase um mês, mas até que foi bom ter sido assim! Digamos que minhas impressões sobre o filme ficam mais “apuradas”… O lado ruim é que a gente esquece muita coisa que acontece na estória quando deixa passar muito tempo entre a exibição e o comentário, mas acho que esse não vai ser um grande problema no caso desse filme.

Paterson é um filme que fala sobre gente muito comum que tem uma veia artística; não necessariamente que viva de sua arte, mas a sua forma de ver a vida é de alguma forma impactada por aquilo que elas criam. O protagonista chama-se Paterson (Adam Driver), é motorista de ônibus da empresa Paterson e vive na cidade chamada… Paterson. Todo o filme cobre uma semana da vida de Paterson ao lado de sua companheira, Laura (Golshifteh Farahani) – daqui a pouco falo dela.

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Imagem: IMDB

A rotina dele é: acordar, tomar café da manhã, sair para trabalhar e escrever poemas antes de fazer a primeira viagem e também nos intervalos. Ele é um poeta não publicado, que não está muito aí para ser publicado e se tornar uma pessoa famosa e reconhecida. Paterson não dá grandes sinais de ser um cara frustrado com a vida que leva de trabalhar o dia inteiro, voltar para casa, dar uma volta com o cachorro e terminar seu dia tomando uma cerveja e batendo papo com o dono do bar – eventualmente com um ou outro cliente que aparece. Já Laura, sendo uma dona de casa, também tem suas aspirações: ela cria cupcakes, cortinas, inventa de aprender a tocar violão e confia no talento de Paterson. Para ela, ele deveria ser publicado, sim!

A relação do casal parece perfeita: eles se dão bem, se apoiam, tem um cachorrinho bonitinho. Ela é musa inspiradora de alguns dos seus versos; e ao mesmo tempo, ele tenta apoiá-la mesmo no que não parece ir tão bem.

Talvez você tenha lido algo sobre esse filme e pensado “eita, que filme paradão, coisa chata!” Mas Paterson tem muito o que dizer para quem lê nas entrelinhas. Os passageiros que Paterson leva e suas histórias, que dão o tom do extraordinário em um dia a dia tão comum; as novidades de Laura e seu engajamento em criar algo novo no seu universo limitado; até os posicionamentos das câmeras nas cenas que iniciam cada dia da semana dos personagens. Até a quarta-feira, o despertar deles é muito comum, visto de cima. Na quinta, o posicionamento da câmera já muda. Objetos do cotidiano e pessoas com histórias muito normais e sem grandes reviravoltas têm seus momentos de destaque durante todo o filme. O espectador é envolvido e surpreendido por algo que certamente não chamaria a atenção se não fosse uma produção tão bem feita. Para mim, a mensagem que fica do longa é que se olharmos com muita atenção, a rotina não é tão tediosa assim. Tem algo acontecendo no meio do “nada acontece” e que lugar poderia ser mais rotineiro e ao mesmo tempo mais surpreendente do que um ônibus que faz o mesmo trajeto, mas não transporta necessariamente as mesmas pessoas sempre?

Mas além desse olhar diferenciado sobre a rotina, o que mais me chamou a atenção foi o papel da poesia para “costurar” o roteiro. Os versos escritos por Paterson surgem na tela, o olhar dele sobre o comum é compartilhado com a gente e me pareceu bem familiar…

Até que esse poema foi citado em um determinado momento do filme:

I have eatenthe plumsthat were inthe iceboxand whichyou were probablysavingfor breakfastForgive methey were deliciousso sweetand so cold.png

Eu não sou muito fã de poemas, esse é um dos poucos que eu posso dizer que amo e sei de cor, de tanto que repeti mentalmente (especialmente quando como uma ameixa). E quando ouvi William Carlos Williams no filme, a ficha caiu: eu estava lembrando dos poemas que conheci graças às aulas de Literatura Inglesa na Universidade! E a menção do poeta não é gratuita, isso só descobri depois de ver o filme, enquanto pesquisava para esse post: William Carlos Williams escreveu um épico chamado Paterson, dividido em quatro livros, que a gente pode achar completo aqui. Ainda vou ler o texto completo, mas só de ler um pouco da primeira parte, ficou clara a inspiração que o livro teve da obra do Williams.

Paterson é o filme mais recente do diretor Jim Jarmusch, foi o primeiro a que eu assisti e a impressão que fica para mim é tão boa que a meta é ver toda a filmografia dele, do mais recente para o mais antigo. É um filme que recomendo fortemente, principalmente para quem gosta de filmes que fujam um pouco (ou muito) do mainstream.

E está em cartaz no Recife! Apenas uma sessão no Rosa e Silva, mas quem puder ver no feriado, fica a dica…

O capítulo 20 de “Americanah”

Faz algumas semanas que comprei o e-book de Americanah, livro de Chimamanda Ngozi Adichie, um romance que estava na fila das minhas leituras futuras há pelo menos um ano. Finalmente chegou a oportunidade de fazer isso e embora ainda não tenha terminado a leitura (entrei na terceira parte do livro ontem), ele já vai para o meu super panteão de livros inesquecíveis por um motivo apenas: a relação da personagem Ifemelu com seu cabelo.

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Imagem: Companhia das Letras

O cabelo não era um elemento forte na narrativa até chegar no capítulo 20, quando Ifemelu tem uma chance de entrevista de emprego e é aconselhada a desfazer as tranças e relaxar o cabelo crespo, para parecer “mais profissional”. Em um dos capítulos anteriores, quando recém-chegada aos EUA, Ifemelu ouve aquele conselho de sua tia Uju, e ri. Dessa vez ela não vê motivos para dar risada: depois de ter passado por poucas e boas nos primeiros anos, enfrentando depressão, comendo o pão que o diabo amassou, as coisas parecem estar ajeitadas na vida dela. Ela tem uma casa para chamar de sua, um namorado que parece gostar dela (seu primeiro namorado branco), seu ciclo na universidade está chegando ao fim e para se manter no país, ela precisa conseguir um emprego. E está disposta a “dançar conforme a música” para consegui-lo.

O capítulo 20 conta justamente esse episódio, o processo de alisamento que a princípio dá errado, quando ela tenta fazê-lo sozinha com um produto comprado na farmácia; depois acaba indo a uma profissional, e o que acontece é o mesmo que houve com muitas de nós: sofrer com o cheiro, com a sensação de ardência do seu couro cabeludo queimando… Até que depois de algum tempo o cabelo começa a ter outros problemas, como cair e vamos à segunda parte do negócio: cortar o cabelo para se livrar da parte quimicamente alterada, o que a gente chama nos grupos de big chop.

E foi a partir daí que esse capítulo (e o 21 também) falaram muito alto ao meu coração. Não pela história do alisamento, porque não tem nada a ver com a minha história pessoal. Quando alisei o cabelo, foi por preguiça de lidar com ele ao natural, pela conveniência de ter alguém cuidando do meu cabelo periodicamente e só me preocupar em pagar por isso. Não foi a necessidade de conseguir um emprego – provavelmente, com o cabelo que tenho hoje, quase três anos depois do início da transição, eu não teria dificuldades para trabalhar, ainda mais na área em que escolhi atuar. Mas a parte do corte, o desgostar do cabeço e depois de um processo de adaptação se descobrir o amando do jeito que é, eu vivi tudo aquilo. O cabelo ficando feio para depois ficar bonito, o medo de que as pessoas não vão mais nos achar bonitas, a dificuldade de se reconhecer no espelho. Eu queria que todo mundo, as meninas que estão passando pela transição capilar, as que já passaram, as que ainda não entraram nessa por medo do revés e dos olhares tortos que vem mesmo, as pessoas ao nosso redor, todo mundo tinha que ler, nem que fosse só o capítulo 20 mesmo.

Acho que ainda vou falar muito desse livro por aqui.