“Testamento” | Capítulo 3

O plano de Carla era simples, mas para ela, que jamais havia andado por essas bandas de paquera virtual, era extremamente ousado – quem diria, logo ela, que parecia à primeira vista tão prafrentex, na verdade era uma pudica e emotiva mulher de um homem só, que sofria por amar e não ser amada por esse mesmo homem. Enfim, ela resolveu instalar o aplicativo e ainda fazer inscrição em outros sites de paquera dos quais já tinha ouvido falar. Em um deles, encontraria um homem bonito e legal o suficiente para, se não se apaixonar, ao menos fazer algum ciúme para Eduardo. O resto da noite dela foi dedicado exclusivamente a marcar as opções existentes com X (a maioria) e coraçõezinhos (alguns rapazes barbados e fortes, aparentemente altos, que apareciam na tela).

[.]

Enquanto isso, Eduardo, Martina, Hélia e Gabriel jantavam como uma família harmônica. Ao fim da refeição, Eduardo foi para a sala e no caminho entre um cômodo e outro, tirou o celular do bolso e deu uma olhada nas chamadas não atendidas. Estava achando um bocado estranho o desaparecimento de Carla, embora não estivesse exatamente achando ruim – e achava que ela era a autora das chamadas que fizeram seu celular vibrar insistentemente durante a refeição. O silêncio dela era providencial para que as coisas entre ele e Martina começassem a se ajeitar, serem como eram antes.

Para surpresa dele, as ligações eram todas de Liv.

– Ué, o que terá acontecido? Ela não disse que precisava falar comigo…

– O que foi, Edu? Tá precisando de alguma coisa? – Hélia perguntou, o pregando um pequeno susto.

– Nada, Helinha. Coisa de trabalho. Uma ex sócia voltou pra empresa e… Ligou várias vezes pra mim, não sei pra que.

– Retorna, ué.

– A essa hora… Sua mãe vai passar a noite toda reclamando se eu ligar pra alguém pra falar de trabalho. Ainda mais sendo a…

– É uma mulher?

– Não qualquer uma. Minha ex-noiva! – ele responde, dando um sorrisinho nervoso e já meio arrependido por ter aberto um ponto inexplorado da sua vida para a enteada.

– Você traiu essa moça com a mamãe ou…

– Não, não. Liv e eu nos separamos um pouco antes de eu conhecer sua mãe. Diferenças inconciliáveis de estilo de vida.

– Entendi.

– Mas somos bons amigos, eu não sei se sua mãe entenderia isso.

– É legal quando as pessoas continuam amigas quando se separam, eu acho. Não conheço ninguém que tenha sido assim, todo mundo fala que quer o ex morto… Tão horrível.

– É verdade!

– Quando eu tiver um namorado, quero ser amiga dele quando acabar.

– Mas essas coisas a gente não pode prever, Helinha. E nem começar um namoro pensando em acabar com ele, não acha?

– Eu sei, mas do jeito que as coisas andam no mundo, ter um relacionamento duradouro está cada vez mais difícil. Você e mamãe são tipo, um recorde.

– Tem razão.

– Vai ligar pra ela?

– De verdade? Não, amanhã falo com ela no escritório.

Mudaram de assunto para um filme na TV e continuaram conversando amenidades, comentando o que se passava na tela, como o pai e filha que eles não eram. Martina se juntou à dupla logo depois, assim que Gabriel foi colocado na cama.

[.]

No dia seguinte, enquanto Eduardo pegava a estrada para voltar à Recife, seu telefone tocou. Dessa vez sim, era Carla.

– Bom dia, Carla, tudo bem? – ele atendeu, usando o bluetooth que conectava seu aparelho ao rádio.

A resposta dela saiu em tom irônico, azedo.

– Oi, Edu. Quanto tempo, né? Eu tô… ótima. Mas acho que a gente precisa conversar.

– É verdade. Quando você pode?

– Hoje à noite. A gente se encontra no Bar Central. Tudo bem?

– Por que lá?

– Porque eu quero sair hoje.

– Merda…

– Eu não vou fazer nada que te coloque numa situação comprometedora, idiota! Eu só quero jantar fora, pode ser?

– Tudo bem. – ele concordou, ainda um pouco relutante.

– Nos vemos às sete em ponto.

– Ok.

Quando ela desligou o telefone, as notícias do dia via CBN voltaram a ecoar, em volume moderado. E ele suspirou, já sentindo algo estranho naquela proposta de ir jantar fora. Mas não demorou muito pensando nisso, concluiu que era apenas uma coisa da cabeça dele e continuou o caminho, pensando em outras coisas.

[.]

Liv saiu correndo da primeira turma de Yoga do dia para tentar alcançar Eduardo ainda na recepção da empresa. Mas ainda assim, chegou tarde demais, segundo a recepcionista do andar onde ele ficava.

– Hoje Sr Eduardo tá com reuniões uma atrás da outra, e ainda um almoço corporativo.

– Puxa vida… E era urgente!

– Quer deixar recado? Ele retorna assim que puder.

– Não, brigada, não precisa. Eu ligo pra ele e tento um horário.

Se afastando do balcão e já descendo a escada, ela faz uma primeira chamada, mas logo desiste ao lembrar que ele está em reunião naquele momento e obviamente não poderá atender. Então resolve mandar um áudio no WhatsApp, torcendo para que ele acesse e ouça em algum momento.

– Oi, Edu! Liv aqui. Tô precisando falar contigo uma coisa muito urgente, mas não dá pra ser por telefone nem por aqui.Você pode passar lá em casa às 21:00? Eu não vou dormir enquanto você não passar lá pra gente conversar, e eu tô falando sério!

Mensagem enviada, ela faz uma pausa no café mais próximo e pede um suco de laranja, para aguardar a próxima aula.

[.]

Já faziam alguns dias desde que Carla tinha ido à casa de Martina para “entrevistar” Hélia. E já tinha dado tempo suficiente para Martina e Gabriel terem esquecido. Mas a jovem pintora não tinha esquecido; e achou que já era tempo de buscar algo online, já que até então nenhum amigo ou conhecido tinha falado nada sobre tê-la visto em jornal ou revista online alguma.

Num intervalo da sua sessão de pintura em aquarela, Hélia busca o nome da revista, Life & Style. Existe, mas não consta nada sobre ela nas atualizações mais recentes. Bate o primeiro aperto no peito, de desapontamento: “será que não gostaram de mim? Não acharam meu trabalho digno? Não, não podia ser. Tanta gente já teceu elogios, gente de fora, inclusive.” Alguns turistas já tinham comprado seu trabalho, então não havia porque duvidar da própria capacidade. Passou para a próxima hipótese: talvez tenham deixado para publicar na semana ou mês seguinte, caso não estivesse dentro do tema escolhido pela editoria para aquele período – quem sabe? Ou ainda, hipótese três: a jornalista poderia ser uma freelancer, que simplesmente desistiu de vender sua matéria para aquele veículo e ia enviá-la para outro, que pagasse mais. Parecia uma justificativa plausível. Assim ela fez a próxima busca, pelo nome da “jornalista”. Colocou, entre aspas, o nome “Carolina Mendes”.

Os resultados que surgiram na tela eram, primeiramente, links para perfis de Facebook, Instagram e Twitter de outras moças com o mesmo nome. Hélia clica em alguns deles, mas a fisionomia de nenhuma delas bate com a da mulher que a visitou. Segue as buscas e, na segunda página, uma notícia chama a sua atenção: “Tragédia automobilística mata três pessoas na BR-232.” “Empresário do ramo de papelaria morre com esposa e filha”, dizia o lead. Na verdade, não foram nem essas duas frases que pegaram a atenção da jovem artista, mas a foto em thumbnail que acompanhava o texto. Era uma foto da família reunida, e as duas garotas, gêmeas idênticas, lembravam a Carolina que estivera em sua casa na semana anterior. Resolveu ler o texto, e o fez em voz alta.

– “Carlos Magno Mendes, sócio da rede de papelarias Colorado; sua esposa Lídia Falcão e as filhas gêmeas Carolina Lígia Mendes Falcão e Carla Magna Mendes Falcão sofreram acidente na descida da Serra das Russas; em Gravatá. O veículo perdeu o controle na descida, chocando-se contra uma mureta e ficando pendurado, por pouco não despencando em um penhasco. Carlos e Lídia morreram na hora; Carolina Lígia foi socorrida e morreu no hospital. Carla Magna, única sobrevivente e gêmea idêntica de Carolina, foi lançada para fora do veículo com o impacto, sofreu escoriações e quebrou um braço.” Caramba… Será que são parentes do Edu? Depois eu pergunto.

Fez mais algumas pesquisas, juntando o nome da moça com o termo “repórter”, finalmente jogou seu próprio nome nas pesquisas e não encontrou nada que pudesse parecer com uma entrevista. Assim, Hélia concluiu, para seu aborrecimento, que havia sido enganada. Mas não lhe ocorria nenhum motivo para que aquilo tivesse acontecido.

[.]

À noite, antes de seguir para o encontro com Carla, Eduardo manda recado para Martina, avisando que não poderá jantar com eles naquela noite; e depois ouviu a mensagem em tom desesperado de Liv. Mais uma vez, aquela sensação esquisita da manhã voltou, mas tratou de espantá-la.

– Isso é porque eu tô trabalhando demais…

Então, para confirmar a presença, assim que entrou no carro ele gravou outra mensagem para a amiga:

– Tá certo, Liv! Às nove em ponto estou no seu apartamento. Vou precisar de uma sessão de meditação e relaxamento depois de hoje. Foi pesado, hein? Até mais.

Assim que terminou de gravar, seguiu para o bar onde Carla o esperava.

O Bar Central não estava muito cheio naquele momento, então ele facilmente localizou Carla no fundo do bar, ocupando uma mesinha à meia luz. E beijando um rapaz, o que o deixou em choque.

– Mas o que é isso? – ele pergunta para si mesmo. – Ela deve estar querendo me chocar.

Carla ainda não tinha se dado conta da chegada de Eduardo, mas de quando em quando abria ligeiramente os olhos para ver o relógio de pulso. Sabia que ele era bem pontual nos encontros. E quando viu que era já a hora marcada, resolveu ousar um pouco mais, deixar que o acompanhante a tocasse de forma mais ousada. Mesmo estando em público, ela deixou que o rapaz tocasse seus seios por baixo do moletom que estava usando.

Eduardo só assistia de longe, e estava se preparando para ir embora, comer em outro lugar; mas ao ver aquele gesto que considerou obsceno demais para sua prima, não se conteve e foi até a mesa, com os passos firmes, punhos cerrados e cara de poucos amigos.

– O que significa isso, Carla? Foi pra isso que você me chamou?

Ouvindo a voz de Eduardo, Carla se desvencilhou do acompanhante e levantou, um pouco trôpega. Não precisava olhar mais atentamente para concluir que ela estava muito bêbada.

– Eu só queria te mostrar, Edu, que você não me tem na mão…

– Claro, ele tem também. E nas duas! – Eduardo replica, agarrando a moça pelo braço – Você vai voltar pra casa agora, vou te deixar lá. E você, cara – ele continua, agora falando para o rapaz que Carla beijava – cai fora daqui, qualquer coisa ela te liga quando estiver sóbria.

– E vai fazer o quê? Vai me bater? Você não tem direito de me dizer o que fazer.

– Tenho o dever de impedir que te aconteça uma desgraça, Carla! O que você quer? Ir pra cama com um desconhecido? Esse cara podia pintar e bordar com você, e aí?

– Não ia ser pior do que o que você fez comigo! Você me humilhou, Eduardo!

Ela continuava gritando, enquanto Eduardo a carregava no colo para fora do bar e a colocava dentro de seu carro.

– Fica aí que eu vou pagar a conta.

Foi só ele se afastar alguns metros para que ela começasse a buzinar ensandecidamente. Ao mesmo tempo, Carla chorava.

Ele volta e tenta controlá-la, colocando o cinto de segurança. Nisso Carla aproveita para beijá-lo, enquanto continua chorando.

– Eu te amo, Edu! Você não merece, mas eu te amo muito!

– Eu… Ah, Carla, eu também amo você. – Ele responde, tentando se concentrar no trânsito ainda um tanto intenso, apesar de ter passado a hora do rush.

– Mentira! – Carla grita – Se você me amasse, você aceitava casar comigo, você não teria outra mulher! Eu já sei de tudo, Eduardo. Você tem outra mulher, você só me usa. Usa do meu amor, da minha inexperiência!

Sem conseguir mais dirigir, ele para em um posto de gasolina mais próximo. Respira fundo.

– Assume que é verdade?

– Eu sou um homem livre, Carla. Desde o fim do meu noivado, eu sou um homem livre.

Com a voz pastosa, Carla retruca mais uma vez:

– Mentira. Você é um traidor safado! Mas eu te amo tanto que você nunca vai encontrar uma mulher que te ame tanto quanto eu. Você não merece, mas eu te amo tanto que eu quero te guardar num potinho. É, eu vou te guardar num potinho!

– Acho que vou te mandar pra casa de Uber só pra não ouvir essa baboseira.

– Você ainda quer ser cremado quando morrer, Edu? Porque o teu dia tá chegando. A gente vai dançar na minha festa de um milhão de seguidores e depois você vai… Morrer! Eu sou a última mulher que você vai beijar na vida!

– Para de falar besteira, garota!

– Eu tô no teu testamento? O Caio e o Téo vão ficar com a empresa? É bom eles saberem porque vai que depois desse trabalho todinho eles morrem na praia e ficam sem nada. Mas se eles não forem os herdeiros, quem vai ser? A sua amante? Os filhos dela?

– Cala a boca, Carla!

Já sem um pingo de paciência, além de gritar, Eduardo ainda mete um tapa no rosto da prima, que para de falar e abaixa a cabeça, chorando. Imediatamente ele expressa arrependimento, tocando o rosto exatamente no lado em que ele bateu.

– Desculpa…

– Sai! Não encosta em mim.

Só então Eduardo consegue voltar a dirigir, enquanto Carla chora baixinho. Chegando à casa dela, ele a leva para dentro carregando no colo, e logo ela volta a falar:

– Tô com tanto tesão…

– Vai dormir, Carla.

– Eu quero fazer amor com você. – ela insiste, já abrindo a blusa e puxando a mão dele para que a toque.

– Isso, tira a roupa que eu vou te botar no chuveiro gelado e depois, dormir, moça!

– Por favor, faz aquilo que eu gosto, vai!

A situação, apesar de tudo, começava a excitar Eduardo. Mas ele sabia bem, não podia se deixar levar por aquilo. Tomou Carla novamente no colo, desta vez nua, e seguiram para o chuveiro, onde ele a colocou no boxe e ligou o chuveiro no frio. Carla apenas o observava, imóvel, com um sorriso enigmático; e começou a se tocar enquanto a água fria caía sobre seu corpo. Nenhuma palavra dita entre eles. Ela se acariciando, provocadora; ele assistindo, com o olhar petrificado. Até que não aguentou mais: Eduardo entrou, com roupa e tudo, a beijando com desejo intenso.

Só depois é que Eduardo percebeu a situação em que se encontrava.

– Droga. Olha o que você faz comigo, garota.

– Você nunca vai se livrar de mim. – Carla responde com um sorriso maroto, e já se lançando para beijá-lo, enquanto ele desliga o chuveiro. – Foi bom, não foi?

– Foi ótimo. Mas eu não devia, você está bêbada demais pra saber o que tá fazendo.

– Eu também queria. Eu sempre quero você, de qualquer jeito.

– Agora você vai dormir.

– Volta pra dormir comigo?

Eduardo não responde, apenas a conduz para a cama e sai em silêncio.

[.]

Pontualmente às nove da noite, Eduardo está, com as roupas ainda meio molhadas, diante do prédio de Liv. Chegando da rua e vendo o amigo daquela maneira, ela não esconde a surpresa.

– Choveu só em cima de você, não foi, Edu?

– Longa história, você não vai querer saber. Mas o que você queria falar comigo mesmo?

– Vamos subir.

No apartamento, ele se acomoda em uma cadeira da sala de jantar, enquanto ela prepara dois chás quentes.

– Toma, pra você não ficar resfriado. – Liv fala, colocando as duas xícaras fumegantes na mesa de tampo de vidro.

– Obrigado.

Enfim ela senta e respira fundo.

– Meu Deus, tô ficando com medo!

– O que eu vou falar é assustador mesmo. Eu ouvi… Ouvi uma conversa antes da reunião de ontem… Caio e Teodoro falando de te tirar de circulação. Em português rasgado, te matar. Sem derramar sangue, na maciota. Envenenamento. Eu precisava te contar.

A princípio, Eduardo não esboça reação alguma. Fica exatamente com aquele olhar que lançou para Carla nua embaixo do chuveiro; mas dessa vez o olhar fica fixo na fumaça que sai da sua xícara. E uma lembrança recente surge: exatamente a voz de Carla:

Você ainda quer ser cremado quando morrer, Edu? Porque o teu dia tá chegando. A gente vai dançar na minha festa de um milhão de seguidores e depois você vai… Morrer! Eu sou a última mulher que você vai beijar na vida!

E então a ficha caiu, embora ele não quisesse acreditar nisso.

– Liv, eu tive uma conversa com a Carla antes de vir pra cá… Antes de me molhar todo. Ela falou algo como se eu fosse morrer depois da festa dela.

– Então ela sabe de tudo. Se bobear, é até cúmplice mesmo, ou é só mais uma querendo te matar por alguma razão que eu desconheço. Não precisa me explicar, obrigada.

– O que eu faço?

– Em caso de ameaça de morte, chamar a polícia, né?

– Não sei… tem a minha tia. E Carla estava bêbada quando falou isso pra mim.

– Seus irmãos não estavam nem um pouquinho bêbados.

– Sabe, eu tava sentindo um negócio estranho quando estava indo trabalhar.

– Que negócio estranho?

– Uma sensação ruim. Agora tô sentindo aquilo de novo.

– Toma o seu chá, já tá morno. Vai te ajudar a relaxar.

– Mas eu não quero relaxar! Quero tirar essa história a limpo e se for verdade…

Liv interrompe a torrente de pensamentos de Eduardo segurando a mão que ele deixa livre sobre a mesa.

– Você não vai resolver essa questão com mais violência. Precisa de clareza, de segurança, isso sim.

Ele apenas a observa, sem nada dizer. E Liv continua:

– Pode falar que é papo besta de super espiritualizada, eu sei que você não liga pra essas coisas.

– Foi por isso, entre outros motivos, que a gente acabou.

– Exatamente.

– Mas dessa vez eu preciso mesmo da sua ajuda. Não vou conseguir enxergar nada com clareza com essa raiva que eu tô sentindo. Não vou nem conseguir dormir. Liv, minha vida tá muito estranha!

– Eu entendo. Talvez tenha sido por isso mesmo que eu voltei, pra te ajudar. O universo tem dessas coisas.

– Então por favor, fala pro universo vir me socorrer com urgência! Eu não quero morrer agora, não posso. Eu tenho um filho e… É isso, tenho um filho, ele é uma criança, precisa muito de mim ainda.

Liv sorri, solta a mão dele e se levanta, levando sua xícara vazia.

– Você vai dormir aqui em casa hoje. Vou pegar uma roupa seca, coisa simples. Você vai tomar um banho, botar essa roupa seca e vou fazer uma massagem em você. Só não se empolgue, porque isso não é um revival.

– Pena. – Eduardo responde, com um risinho zombeteiro.

– Vamos meditar juntos, você vai ver como vai se sentir bem melhor! Vai conseguir dormir, vai conseguir pensar…

Depois, Liv o conduz para um quarto quase sem mobília, contando apenas com os tapetes, um futon e uma mesinha de canto, onde se encontram velas e incensos. Lá, ela o instrui a sentar como se sentir mais confortável, e faz o mesmo.

– Agora, inspire profundamente pelo nariz, expire pela boca, sem pressa, e feche os olhos.

Eduardo obedece. E assim ela vai o conduzindo durante uma sessão de meditação. Depois faz uma massagem em suas costas, com óleos essenciais; e enquanto isso, ele vai contando toda a vida ele no período pós fim de noivado até aquele instante. Nada ficou oculto, nem mesmo o caso com Carla. No final da noite, já quase dormindo, ele pergunta:

– Você tá me odiando agora, não é?

– Não, Edu, eu não te odeio. Eu quero que você seja feliz e pare de fazer mal a si mesmo e às pessoas ao seu redor. Meu maior sonho é que você possa viver a vida com leveza. E nem precisa de muito pra isso, basta viver na verdade.

Liv beija Eduardo na testa, e enfim o deixa cair no sono de uma vez, adormecendo ao seu lado logo depois.

Quando amanhece, ela é a primeira a levantar da cama. Eduardo desperta cerca de meia hora depois, sentindo-se disposto.

– Bom dia! Então, como se sente?

– Você vai se ofender se eu disser que você é uma bruxa? Do bem, pra deixar bem claro.

Ela responde com uma risada, e Eduardo a abraça com força.

– Desculpa por caçoar do seu jeito de viver, e obrigado por ter me ajudado. Vou vir na sua casa dia sim, dia não, só pra dormir como eu dormi essa noite.

– Só avisando que…

– Eu sei, a gente não vai transar! Mas agora sério…

– Eu tô falando sério!

– Eu tive uma ideia para resolver esse problema.

– Pode compartilhar?

– Na hora certa você vai saber. Agora tenho que ir. Mais uma vez, muito obrigado!

Eduardo sai sem tomar o café da manhã, mas já se sentindo bem energizado e tranquilo, como não imaginava que fosse possível ficar. Antes de sair com o carro, faz uma ligação para Carla.

– Dormiu bem? A ressaca te pegou com força?

– Tô com dor de cabeça…

– Claro, bebeu mais do que podia, dá nisso.

– Por que você não veio dormir comigo?

– Eu não estava me sentindo bem.

– Vamos nos ver hoje?

– Não sei, apareceram uns pepinos de última hora aí.

– Desculpa pelas merdas que eu falei ontem.

– Tudo bem, Carla. Mas me diz uma coisa, quando vai ser sua festa de um milhão de seguidores?

– Não sei, ainda tô vendo data lá no Armazém. Por quê?

– Só pra colocar na agenda. Não quero perder o seu triunfo!

Depois que terminou o papo com a prima, ele seguiu viagem, mas em vez de ir para casa ou para a empresa, estacionou num prédio em cuja placa se lia: Coutinho & Pedrosa Advogados associados. Lá, foi encaminhado à sala onde uma mulher alta, imponente, de cabelos curtos e grisalhos o recebeu com um sorriso.

– Olá, Edu! Quanto tempo, né?

– Tá muito ocupada, Débora? Pode atender seu querido ex-cunhado?

– E eterno cliente favorito? Sempre! A que devo sua visita?

– Preciso escrever meu testamento.

– Não tá meio cedo demais pra pensar nisso? Um cara jovem e saudável como você…

– Mas fatalidades acontecem, e você conhece minha família. Não quero deixar nada pros vivos se matarem.

– Mesmo um dos vivos sendo o Téo? Tem certeza?

– Mesmo ele.

Testamento | Capítulo 2

– Pronto, agora que a gente sabe que a mulher existe, com dois filhos ainda mais…

– Os dois são dele? – Hermengarda questionava, interrompendo Caio.

– Só o menino. Se chama Gabriel.

– Dele mesmo?

– Carla disse que o pirralho tem os olhos iguais aos do Caio.

– E o que Carla estava fazendo lá?

– O mesmo que nós, investigando. Na verdade, se ela não tivesse ido por conta própria, eu tinha levado. Foi a melhor saída pra fuçar sem levantar suspeitas.

Durante a reunião, Caio, Teodoro e Hermengarda buscavam uma forma de tirar a família oculta de Eduardo de uma possível disputa por herança. E foi de Teodoro que surgiu a ideia, depois de muita ruminação.

– Ele nunca apresentou essa família para o resto do mundo por algum motivo…

– Dar uma rasteira em vocês, claro!

– Calma, tia, eu tive uma ideia. O que podemos fazer é, primeiramente, provar que esse garotinho, o Gabriel, não tem nenhuma ligação filial com Eduardo, apesar dos olhos. E aproveitar para antecipar a partida de Eduardo para o outro mundo, assim ele não teria tempo de contestar, e ainda sobraria mais pra nós…

– Você tá querendo matar o Edu, é isso?

– Tá, exagerei um pouco. Mas a gente pode tirá-lo de combate deixando, sei lá, paraplégico. Enfim, qualquer coisa que faça a gente tomar conta do negócio e deixar ele e o bastardo e a amante de fora.

– A enteada eu quero, só pra constar. Mas sabe, o teu plano é muito interessante, mas temos um problema interno para executá-lo.

– Qual?

– Carla, ora! Ela tem um caso com o Edu, tava toda se saracoteando de ciúme pra lá…

– Então a menina não é problema, é solução! – Hermengarda interferia novamente.

[.]

Enquanto isso, em seu apartamento que ficava não muito longe da casa dos primos, Carla fazia uma sessão de autorretratos com o vestido de noiva recém-comprado e fazia uma live para o YouTube, anunciando um sorteio especial para suas seguidoras.

Depois, encerrada a sessão nas redes sociais, ela senta sozinha em meio à bagunça que está sua sala de estar, com tripé, câmera, smartphone e laptop jogado para tudo quanto é lado, e finalmente consegue chorar. Carla urra, grita de raiva pela rejeição, de tristeza, de ódio. Logo ela, tão bonita, tão admirada por homens e mulheres, tão merecedora de likes, amargando rejeição quando as luzes se apagam. Na cabeça dela, a conta não fecha.

Soluçando, Carla pergunta diante do espelho:

– O que eu fiz? O que eu não fiz? Eu não posso ter jogado fora tantos anos da minha vida com você, Eduardo, não…

No meio desse espetáculo privado de autocomiseração, o telefone toca e ela pula no sofá para atender, achando que por um milagre, o universo tinha ouvido o seu choro e feito Eduardo ter vontade de ligar para ela. Mas o nome na tela era outro: Viviane Cabral, chamada de vídeo no Skype. Carla prontamente rejeita, mas faz uma chamada de áudio.

– Desculpa, eu não posso aparecer agora em vídeo, tô… Fazendo uma esfoliação no rosto.

– Eita, hora péssima, né… Tá tudo bem contigo? – Viviane pergunta, meio que estranhando o tom de voz da amiga – sabe que ela não é daquele jeito.

– Tudo. Só rolaram uns problemas de família, aí eu tô meio cansada. Sabe como é…

– Sua tia?

– É, tia Hermengarda. Mas tá tudo certo de novo, ela tá ótima. Mas fala aí, o que tá rolando?

– Topa gravar uma collab esse fim de semana?

– Topo! Sobre o que vai ser?

– Amor próprio e relacionamentos.

Que bela hora para Viviane propor o assunto! Justo quando Carla se sentia destruída por dentro. Mas não ia deixar que Vivica percebesse o quanto ela estava despedaçada e por mais que quisesse declinar o convite quando ouviu do tema, manteve a pose.

– Na sua casa ou na minha?

[.]

De volta à Camela, lá pelo final da tarde, Eduardo aparece à porta, para jantar com a família. É recepcionado por Martina com um beijo, que ele corresponde friamente.

– O que aconteceu, Eduardo?

– Nada. – ele responde, mirando um ponto qualquer no telhado.

– Se acontecendo nada tá desse jeito, imagina se acontecer alguma coisa! Vai, fala o que foi.

– Já falei, Tina, foi nada não, coisa besta.

– Se é pra ficar vindo assim, com essa cara emburrada, melhor que nem venha.

– Então eu volto daqui da porta mesmo. Tchau.

E ele ia mesmo embora, mas a voz de Gabriel o chamando fez com que mudasse de ideia.

– Tudo bem, filho? – ele abraça o garoto, tenta sorrir e o beija na cabeça.

– Tudo. Hoje veio uma moça aqui em casa entrevistar a Helinha!

– Foi? Me conta mais disso.

Pai e filho se entretinham com a conversa e Martina ainda ficou um tempo os assistindo, guardando certa distância, mas logo desistiu de ficar lá. Parecia que era uma figura invisível, já que Eduardo mal se dignava a olhar para ela; era todo olhos e ouvidos para o menino.

Durante o jantar, na cozinha da casa pequena, o silêncio entre o casal prevalecia. Diálogo apenas entre Gabriel e Hélia, que tentavam incluir os pais no papo.

– Mamãe disse que deve ter sido você quem mandou a Carolina Mendes aqui pra falar comigo. Foi mesmo, Edu?

– Quem é Carolina Mendes?

– A repórter, pai!

– Ah, sim… Olha, Helinha, eu fico muito feliz que tenham te descoberto, mas não fui eu. Nem sei quem é essa menina. Quer dizer, não lembro. Como ela é?

– Um tipo bem comum. Alta, magra, bem maquiadinha, cabelão preto.

– Ela é tão linda, pai!

– Produzidona.

– É uma descrição meio genérica mesmo. Enfim, eu não lembro de nenhuma moça com esse nome, além da minha prima que morreu. Tão nova, tadinha…

– Do que a sua prima morreu, pai?

– Acidente de carro. Só a irmã dela, Carla, sobreviveu. Uma tragédia.

– Queria conhecer ela. É minha prima também, né?

– Claro!

– Claro que é prima dele ou claro que você vai levar o menino pra conhecer os parentes? – 

Martina finalmente abriu a boca, com tom de hostilidade e já levantando da mesa para recolher os pratos vazios.

– Claro que é prima dele, ora. Mas infelizmente, você não vai poder conhecer a Carla, Biel.

– Por quê? – ela insistia, dessa vez olhando bem nos olhos do companheiro.

– É, por que, pai?

– Carla não mora mais no Brasil.

– Onde ela mora?

– Buenos Aires.

– O senhor pode me levar pra Buenos Aires um dia?

– Papai anda muito ocupado, mas um dia…

– Um dia antes de você morrer, vai fazer todas as vontades do Biel, né? Mas será que vai dar tempo?

Hélia não precisou de mais nada para ter certeza de que o tempo tinha fechado naquela cozinha. Levantou e pegou o irmãozinho pela mão, para sair dali.

– Vam’bora, Biel? Tá rolando conversa de adulto aqui…

Logo que se viram sozinhos, o clima fechou de vez.

– Qual é o seu problema, Martina?

– Eu que perguntei primeiro, assim que você botou o pé pra dentro dessa casa!

– Não é nada que tenha a ver com vocês. Coisa de trabalho, você sabe…

– Não, eu não sei! Não sei nem por que eu aceito essa vida, sabe?

– E agora…

– Você mantém a gente à margem de tudo, Eduardo! Tá achando que eu sou o quê? Eu sou a mãe do seu filho e você me trata como se fosse indigna de conviver com a sua família! Pior, exclui o Gabriel de tudo! Ele não tem convívio com tio, primo, ninguém!

– Eu já te expliquei isso! A minha família é extremamente… Disfuncional!

– Dane-se que é disfuncional! É a sua família.

– Vocês são a minha família! Você, Biel e Helinha. Vocês são meu referencial. Caio e Téo são mais meus sócios do que meus irmãos. Quando tia Hermengarda morrer, a gente vai dividir o patrimônio da família e cada um vai seguir seu rumo, então não há nada para esconder. Eu só protejo vocês.

– Protege? E por que tá tão frio comigo? Não é de hoje que tô reparando na mudança do seu comportamento.

– Eu mudei.

– É, você mudou.

– Todo mundo muda com o tempo.

– Não se faz de sonso, Eduardo! Você não é mais o mesmo homem comigo. Com os meninos você não mudou nada, o problema é com a gente, homem e mulher. Tem outra na jogada?

Confrontado daquela maneira, com os olhos escuros de Martina bem mirando nos olhos dele, Eduardo ficou mudo.

– Demorou demais pra responder. Eu sabia! Você me trai… Há quanto tempo?

– Eu…

– Não enrola, Eduardo! – Martina explode – Há quanto tempo você me chifra?

[.]

Corta para Fevereiro de 2013, começo do carnaval. Carla Magna vinha visitar a tia e os primos em Recife, e aproveitar a folia que não vivenciava desde que tinha se mudado para Buenos Aires, com o intuito de estudar Jornalismo e se refazer da tragédia que havia matado seus pais e sua irmã gêmea, Carolina Lígia.

É Eduardo quem vai buscar a jovem no aeroporto, no meio daquela muvuca de prévias carnavalescas. Carla olha tudo pela janela, encantada com a decoração da cidade para o período.

– Tá achando tudo diferente, né, Carla? – Eduardo pergunta, se divertindo com o encantamento da prima.

Ela, por sua vez, tem lágrimas nos olhos e responde, com a voz embargada.

– Fazia tanto tempo que eu não via isso… Lembro tanto da Carol, da farra que a gente fazia! Do Teodoro e o papai levando a gente pros bailes. Eu não conseguia ver nada de carnaval em Recife sem chorar.

– Pelo jeito, ainda não consegue…

Carla seca os olhos com um lencinho que tira do bolso da calça.

– Já foi bem pior. Hoje eu tô mais forte, comecei a terapia assim que me mudei pra Argentina. E lá no outro plano, eles vão ficar felizes de me ver festejar de novo.

– Vão sim.

– E você, Edu? Lembro que não era o maior fã de carnaval…

– Eu e a Liv sempre preferimos uma coisa mais calma.

– Casaram?

– A gente rompeu tem uns… quatro anos.

– Que pena!

– Você tá namorando?

– Longa história… Não gosto de falar muito sobre isso, não.

– Uma garota como você, os hermanos devem correr atrás com força, diga aí.

– Tô focada no trabalho. Comecei a tocar um blog de moda e lifestyle ano passado.

– Agora virou blogueira, foi?

– Não vi a graça, seu Eduardo! Parece futilidade só porque você não conhece a trabalheira que tem por trás.

– Tá certo, dona blogueira. Mais tarde você explica todo esse trabalho pra mim e pra titia. Téo, Joyce, Caio e Débora viajaram pro interior, então somos só nós três.

– Você vai pras festas comigo, então?

– Vou!

No meio do baile de carnaval, os primos trocaram o primeiro beijo, sem o auxílio de álcool por nenhuma das partes. Dali para a frente, não desgrudaram mais. Foi com Eduardo que Carla fez sexo pela primeira vez, e começou a alimentar milhares de sonhos românticos. Era como se não existisse amor antes ou depois dele; ele era o seu mundo. Da parte de Eduardo, embora achasse Carla bastante atraente, divertida, inteligente e satisfatória na cama, ele não queria nada mais sério. Não andava mais com ela em lugares onde pudesse ser visto em público. Tentava mantê-la numa espécie de “cercadinho” onde o affair deles poderia viver livremente, mas as coisas ficaram bem mais complicadas quando ela começou a querer mostrá-lo em suas redes sociais em datas como o Dia dos Namorados; e o mencionava como “mozão” em dezenas de posts. Finalmente, o pedido de casamento teatral no almoxarifado da gráfica. Precisava se livrar dela, mas precisava estudar a melhor forma, porque a moça é sua parente. E ele não ousava dizer em voz alta, mas Carla era uma amante bem mais empolgante para ele do que Martina. Ele não falava, mas a frequência sexual com a mãe de seu filho era eloquente o suficiente.

[.]

De volta à cozinha da casa de Martina. O clima continuava tenso, e Eduardo mudo. A mulher, magoada, despejava seu discurso em cima dele.

– Não precisa dizer mais nada, na verdade nem me interessa há quanto tempo você sai com essa outra, ou com outras. Mas se é assim, então prefiro que você não volte mais aqui.

– Martina, Gabriel…

– Ah, agora você se preocupa com ele, né? Por que não pensou no menino antes de me trair?

– Espera aí, calma! Vamos resolver isso de uma forma adulta.

– Ou ela ou eu!

– Eu disse ‘de uma forma adulta’.

– Muito bem. Qual é a sua concepção de ‘forma adulta’? Manter duas mulheres ao mesmo tempo, ser desonesto?

– Nosso relacionamento estagnou de uns tempos pra cá, e eu reconheço a minha falha. Peço perdão por isso.

– Certo. E o que mais?

– Eu vou fazer o que tiver ao meu alcance para que a gente possa se entender, voltar a ser o casal que a gente era antes. Vamos tentar?

– E a outra?

– Se você me der essa chance da gente se consertar, não vai haver outra nunca mais.

– De onde ela é? É mais jovem do que eu?

– Não quero falar sobre ela.

– Por quê?

– Porque… Poxa, Martina! Eu tô aqui propondo um recomeço, e você querendo deixar essa minha… aventura entre nós ainda! Essa mulher não é importante, foi um caso, foi só sexo! Não tem sentimento, não tem planos pro futuro, não tem nada.

De certa forma, Eduardo estava realmente colocando seu coração ali. Reconhecia de verdade seu erro e o relacionamento dele com Carla era, basicamente, sexo e amizade. Mas haviam, sim, alguns planos para o futuro (não iguais aos que tinha com Martina, mas ainda assim, eram planos).

Ele se despediu da família oculta fazendo promessa de buscar Martina para passar um fim de semana a sós em um resort, e assim começariam a voltar às boas como casal.

[.]

Chegado o sábado, ele saiu de casa dizendo à tia que ia passar uns dias num retiro e só voltaria na segunda-feira, indo direto para o trabalho. Desligou o celular tão logo cruzou o portão da garagem. Ainda eram seis da manhã e todos, à exceção de Hermengarda, dormiam.

Quando acordou, Carla pegou o celular ainda deitada na cama e ligou para o amante. Três vezes, para nas três ter o mesmo resultado: caixa postal. Seu dia mal tinha começado e a garota já estava bufando de raiva; passaria o dia inteiro azeda, mas precisava mudar um pouco o mindset, porque na sua agenda tinha a collab com Vivica, e para aparecer no vídeo, não podia estar com aquela cara de abuso.

Precisamente, ela tinha quatro horas para melhorar de estado de espírito, pois tinha marcado de chegar à casa da YouTuber às duas e meia da tarde. E tentou de tudo: tomou chazinhos, calmante fitoterápico, meditação guiada, umas poses de Yoga, até que se sentiu preparada para aparecer. Diante do espelho, mesmo sem maquiagem, não parecia mais tão abatida nem irritada; e quando terminasse o make, estaria ainda melhor – estaria brilhando!

[.]

Viviane já a esperava, com o estúdio montado em sua sala de estar. Além dela, tinha outra mulher, aparentemente mais velha, mexendo na câmera e ajustando a luz.

– Então, pronta? Vamos começar?

– Vamos… vamos.

Carla tentava, sem muito sucesso, disfarçar o desconforto de ver uma terceira pessoa por ali. Viviane percebeu e tentou mudar o foco.

– Você está linda, tua maquiagem tá um espetáculo!

– Que bom! – Carla respondeu, com um sorriso sincero.

Indo para o sofá, Vivica falou, baixinho:

– Pode ficar de boas que a Claire é legal.

– Tá bom. É só falta de costume, nunca tenho ninguém pra cuidar da técnica dos vídeos pra mim…

– Devia ter, é uma super mão na roda. Claire, tudo certo?

– Câmera rodou… som rodou… ação!

Então começava o bate-papo entre as blogueiras. Tudo tranquilo, risadas, uma pausa para água aqui e ali, retoques na maquiagem que começava a derreter. Numa dessas pausas, Carla passou a mão no smartphone com a intenção de só ver as horas, mas checou as redes sociais e terminou vendo os registros de chamadas. Nenhuma ligação perdida, nenhum sinal de Eduardo em lugar nenhum.

Resolveu tentar outra vez, horas já tinham se passado! E o resultado foi exatamente o mesmo: desligado ou fora da área de cobertura. Aquilo apertava o seu coração como um torniquete, a ponto de sentir que começava a ter dificuldades para respirar.

– Vamos voltar, Maguinha? – Vivica chamava a colega pelo apelido pelo qual Carla Magna era conhecida no meio blogueiro local. A voz de Viviane a trouxe de volta à realidade, mas ela não teve tempo de voltar ao semblante “nada está acontecendo e a vida é ótima” com o qual tinha chegado à casa. E, naturalmente, aquilo não passou despercebido. – Aconteceu alguma coisa?

– Não, Vivica. Vamos lá! – Carla respondeu, forçando o sorriso.

No sofá novamente, Vivica puxava o papo.

– Então, às vezes acontecem uns episódios na vida que tem poder pra derrubar a autoestima da gente. Tipo aconteceu comigo, o cara largar mão de mim depois do primeiro encontro e a gente fica como? Se perguntando o que fez de errado, qual foi a merda, daí pra dizer “sou feia, sou burra e não mereço ser amada por ninguém” é um pulo…

Falando para a câmera e gesticulando, Viviane não percebeu que lágrimas grossas e pretas de delineador caíam pelo rosto de Carla. Foi preciso que Claire desse o sinal. 

– Corta!

– Mas tava tudo tão… ai meu Deus, Carla! O que aconteceu? Foi alguma coisa que eu falei?

– Eu… – Carla começou e logo parou, num choro convulsivo, depois recuperou o fôlego para continuar, abraçada à colega – Tô me sentindo um lixo, Vivica!

– Mas você tava tão bem… foi alguma coisa nos comentários? Você já sabe como os haters são…

– Não é hater não… é o meu namorado! Eu descobri que ele tem outra!

– Ô, Jesus… Calma, toma um copo d’água aqui.

Viviane pega o copo de água com açúcar trazido pela operadora de câmera e passa às mãos trêmulas de Carla.

– A gente pode parar por hoje, continuar depois se você quiser.

– Não, eu preciso me distrair! Preciso trabalhar!

– Não, você precisa cuidar do seu coração. Se acalma. Conta pra mim o que tá acontecendo.

Elas estavam sozinhas na sala, e Carla abriu o coração, contando absolutamente tudo o que acontecia na sua vida. Nada ficou escondido, nem mesmo o fato de que seu “namorado” era seu primo. Depois de jogar tudo de uma vez, Carla enfim parou para respirar e já não chorava. Viviane estava boquiaberta.

– Que história! É uma loucura!

– E só tô contando tudo isso pra você porque sinto que você é alguém em quem posso confiar de verdade.

– Obrigada pela parte que me toca. Tá melhor?

– Vou dar um jeito nessa cara e a gente retoma.

[.]

Longe dali, em um resort all inclusive, Eduardo e Martina tomavam uma cerveja sob um guarda-sol, enquanto assistem a tarde começar a cair. A tranquilidade paira entre eles.

– Era disso que eu sentia falta. – ela diz, num suspiro.

– Eu prometo que de agora em diante vou valorizar mais você, os meninos. Principalmente você, Tina. Eu tenho falhado muito como…

– Como marido? Era isso que você ia dizer?

– Bom, a gente vive como se fosse casado mesmo.

– Mas ainda não é de direito. Acho que já tá na hora da gente resolver isso também, não acha?

Eduardo fica pensativo.

– O que foi?

– Nada. É só que… bem, eu não sei se esse é o momento pra dar um passo desses. 

– Se depois de quase nove anos o momento ainda não chegou, quando vai ser?

– Eu não quero começar outra discussão. 

– Nem eu. – Martina retruca, comedida. – Mas aquilo que eu te falei naquele dia continua valendo, Edu. O tempo tá passando e você aí falando em fazer isso, fazer aquilo, tudo um dia. Mas a gente nunca sabe quando a morte pode aparecer no meio do caminho e acabar com tudo. Deus nos livre, mas a gente pode morrer quando estiver voltando da praia, sabia?

– Nem fala um negócio desses!

– Eu não quero que você morra, mas pensa nisso. Essas coisas não esperam.

– Eu vou pensar. Mas agora não. Dá pra gente voltar a só curtir a vista?

Tomando a mão da mulher e a beijando, Eduardo encerrou a conversa. E o fim de semana correu como se nada tivesse acontecido. 

[.]

Corta para a segunda feira. Quando Caio e Teodoro chegam para trabalhar, Eduardo já está lá, bronzeado e disposto, conversando com a secretária e dando instruções. Imediatamente se interrompe ao ver os irmãos chegarem.

– Bom ver vocês aqui, logo cedo!

– Viemos para a reunião que você marcou. Parece que o fim de semana foi bom, né, Edu? – Caio comenta, com um tom ligeiramente irônico.

– Melhor do que você pensa. – Eduardo rebate, no mesmo tom e com um sorriso adicional.

– Vamos entrar? – Teodoro fala, já caminhando para a porta da sala de reuniões.

– É, não. Ainda não, Téo. – e ele para, dando meia volta ao ouvir a negativa de Eduardo.

– Por que não?

– Marquei uma reunião com a Liv antes de vocês, e tinha esquecido. Vamos atrasar em uma hora.

– Isso é sério mesmo ou você tá fugindo pra encontrar a ex? Esse fim de vocês nunca me enganou…

– Nunca me meti nos teus assuntos com a Débora, Téo, então…

– Ok, desculpa.

– Enquanto eu não volto, vocês podem ir lendo as planilhas do financeiro e façam sugestões para o novo plano de marketing, vamos ter uma reunião com a equipe mais tarde, então vamos fazer render. Até mais tarde.

Dizendo isso, Eduardo saiu correndo, como quem tinha a intenção de ir em um pé e voltar no outro. Os outros dois assistem à cena e depois se dirigem para a sala de reuniões, comentando baixinho:

– Não é ridículo isso? Ele mandando na gente… Façam isso, façam aquilo… O caçulinha mimado, mandando!

– Não por muito tempo, Téo. A gente vai dar um jeito de colocar o Eduardo no lugar dele, e isso vai ser logo.

– Como?

– Com o nosso plano, ora. O lugar dele, bem longe dessa gráfica, da nossa casa, de tudo. Se possível até desse planeta!

[.]

Liv foi facilmente identificável por Eduardo, ocupando uma mesinha na área externa de um café localizado a apenas 200 metros da gráfica. Ele tinha, inclusive, ido a pé encontrar a ex noiva e ex colega de trabalho. Ela era a única cliente ocupando aquela área do estabelecimento. Tomava um copo de água bem gelado e, ao vê-lo se aproximando, levantou, abrindo um largo sorriso.

– Bem vinda de volta, querida!

– Muito obrigada! – Liv responde com voz tranquila e um abraço apertado.

– Desculpe o atraso, mas eu precisei me justificar com os outros dois lá…

– Você tá com uma cara ótima, Edu. Só o teu jeito de se referir aos teus irmãos é que deu uma piorada nos últimos anos, né?

– É que você não viu o que tem rolado na gráfica nos últimos anos, desde que você foi embora. Téo e Caio parecem que estão o tempo todo querendo me passar a perna. Aliás, não só parece, como já tiveram atitudes que quase me tiraram da diretoria. Mas com as equipes todas do meu lado e o histórico de sucesso da empresa, fiquei mais firme do que nunca.

– Fico feliz que você continue firme. E como está a sua vida, assim, no geral?

– Bem… Passei um fim de semana bem retirado na praia, fazia tempo que não fugia assim, pra manter contato com a natureza. Acompanhado, antes que você pergunte.

– Tá, não vou perguntar acompanhado de quem, porque o compromisso de não saber da sua vida privada continua de pé.

– Por que isso ainda? Faz tanto tempo que a gente acabou, e a gente continua amigo… Queria poder te falar das minhas coisas.

– Acho que ainda não é hora. Mas voltando ao trabalho, eu queria te falar que eu tô pronta pra voltar pra rotina de escritório.

– Como é isso? Você vai largar essa vida de ashrams, aulas de yoga, viagens à Índia… Acabou?

– Não! Nada a ver, mas eu ando pensando muito em voltar pra gráfica, em contribuir de alguma forma de novo com o marketing. Não como era antigamente, mas de uma forma melhor. Porque eu virei uma pessoa mais…

– Meu Deus, tô adorando essa versão nova e zen da Liv… Pena que eu não casaria com ela.

Os dois riem muito, pedem chá (para ela) e café (para ele), para então retomar a conversa:

– Você vai voltar pra diretoria de marketing então.

– Não, fica tudo do jeito que tá, mantenha o seu diretor. Eu quero participar como consultora. Um trabalho part-time, para conciliar com as minhas turmas de yoga, claro. E ainda posso fazer umas sessões de meditação, se você deixar… Assim, pra melhorar o clima da companhia.

– Sabia que você ia querer enfiar essas coisas na história…

– Mas Edu, olha só pra você. Um fim de semana só longe do estresse já te deixou assim, todo feliz, com brilho nos olhos.

– Mas eu não tava exatamente meditando, você sabe.

– Sei! – ela responde, rindo. – Mas o que eu quero dizer é que você se beneficiou de algo que te deixa bem relaxado. Imagina ter isso, ou algo muito próximo, no seu ambiente de trabalho! Imagina Caio e Teodoro meditando, se conectando com o seu próprio eu… Acho que ia ser uma boa pra dar uma melhorada no clima entre vocês três. Vocês são irmãos, poxa.

– Okay, dona ioguini! Eu aceito a proposta. Você volta como consultora de marketing, participa das reuniões… Inclusive tem uma hoje à tarde, a senhorita já está convocada. E tenta colocar os meus irmãos pra aprenderem alguma coisa que preste, manda eles pra Índia, se quiser.

– Bom, se eles quiserem, estou organizando caravana pro ano que vem!

A dupla terminava as bebidas, dessa vez conversando amenidades; e se despediram, combinando de se encontrarem à tarde, para a reunião.

[.]

Liv chegou ao escritório antes do horário, e como era ainda horário de almoço, encontrou poucas pessoas circulando por lá. Praticamente todas completamente desconhecidas para ela. Mas, enquanto seguia para o banheiro feminino, passou por uma porta entreaberta – era justamente a porta do escritório de Teodoro, e não conseguiu não ouvir algumas palavras, que a fizeram parar por ali:

– A gente não tem outro jeito, a não ser tirá-lo de circulação daquele jeito.

Era a voz de Teodoro mesmo, ela ainda lembrava bem. E as palavras “tirá-lo de circulação”, mesmo sem saber de quem se tratava, a assustaram. Liv inspirou e expirou lentamente e sem fazer ruído, enquanto encostava o corpo na parede para ouvir melhor. A próxima voz que ouviu era a de Caio.

– Mas a gente não pode levantar suspeitas, nem derramar sangue.

– Então o jeito é no meio de uma festa… Envenenar uma bebida.

– Certo, mas que festa? Não tem nada programado na família, que eu lembre.

– Mas Carla pode resolver isso.

– Não era melhor deixar a Carla de fora?

– Não. Ela já tá envolvida. Ela tá magoada, com raiva, deve querer se vingar tanto quanto a gente, ou até mais, sabia?

– Eu não gosto de mexer com ela. Me ajudou muito no negócio da investigação e tudo, mas é uma garota que apanhou demais da vida. Quando o Edu sumir da vida dela pelas nossas mãos, ela pode até agradecer, mas não quero que ela se envolva direto nisso.

– O que você acha da gente perguntar se ela quer entrar no plano?

– Se quiser perguntar, pergunta. Eu mantenho o meu ponto, Carla fora dessa história. E fecha essa porta, que alguém pode ouvir!

– Alguém quem, cara? Todo mundo saiu pro almoço!

– Alguém já pode ter voltado, não?

– Tá bom!

A porta se fecha de uma vez e Liv deixa escapar um suspiro de susto.

[.]

A reunião com a presença de Liv correu tranquila e produtiva, mas, por dentro de alguns dos participantes, algo não ia bem. A própria Liv estava se sentindo inquieta, por ter ouvido o que tinha ouvido e não saber como falar para Eduardo que ele estava sendo vítima de uma conspiração. Do outro lado da mesa, Teodoro e Caio estavam também inquietos, embora não demonstrassem. Já se imaginavam ocupando aquele espaço de forma definitiva, e dançando em cima do túmulo do irmão mais novo.

Ao término da reunião, que durou aproximadamente uma hora, os irmãos foram abordar exatamente Liv, que não conseguiu disfarçar muito bem o seu susto.

– O que houve, Liv? Não lembra mais da gente?
– Claro que lembro.
– Então por que o susto?
– Susto? Ah, foi bobagem! Eu tava com a cabeça em outro lugar.
– O que te trouxe de volta às salas de reunião?
– No fundo, eu estava com saudade. É acho que tenho muito com o que contribuir ainda por aqui. Mas claro que não deixei minhas outras atividades de lado.
– Depois da Yoga, você ficou ainda mais bonita, sabia? – Teodoro disparou, com um ar galanteador que fez Liv dar um sorriso nervoso.
– Obrigada… É uma forma de viver que me faz muito feliz, de verdade. A propósito, eu tenho algo pra falar com vocês, uma proposta que eu trouxe pro Edu e ele gostou… Mas antes preciso falar com ele, não saiam saí!

Nisso Liv sai correndo em busca de Eduardo, mas ele já não se encontra mais no prédio. Enquanto ela procura, os outros dois conversam no canto.

– Já tá dando em cima da miss espiritualidade, Téo?
– Vou fazer o que? Ela tá gata mesmo, muito mais do que quando namorava o Edu. Você nunca viu como são essas construtoras de Yoga? Não tem uma que não seja assim muito bonita. E eu nunca dormi com uma, vai que a oportunidade é essa!
– Acho que Liv não ia sujar a aura dela com você.
– Se ela quiser limpar a minha aura, vai ter que se sujar um pouquinho.

Os dois estão rindo, quando ela volta, com cara de preocupação. E Teodoro não deixa passar.

– O que houve, Liv? Era algo muito urgente?
– Era um negócio que eu precisava falar com o Edu… Mas deixa pra lá, eu ligo depois.
– Será que a gente não pode ajudar?
– É assunto pessoal. Com licença.

Ela está saindo, quando Teodoro a segura gentilmente pelo braço.

– Mas e a ideia que você ia compartilhar com a gente?
– Ah, é… bem, vamos andando e eu vou explicando, pode ser?

Os três descem juntos a escada, enquanto ela tenta disfarçar a preocupação e fala das propostas de sessões de meditação antes e depois do expediente.

[.]

Mais tarde, naquele mesmo dia, Carla está só em casa, comendo pizza e assistindo à collab dela com Vivica, gravada no sábado anterior. Não está prestando muita atenção; na verdade enquanto o vídeo rola, ela vai vendo os títulos dos vídeos relacionados e entre eles está um com título bem sugestivo: “Será que eu devia baixar o Tinder?”

Quando ela vai clicar naquele link, a campainha toca. Ela vai atender e, para sua surpresa, é Teodoro.

– Olha quem lembrou o endereço daqui de casa!

Teodoro vai entrando e sentando na poltrona que encontra vazia.

– Caio me contou tudo. Você ainda tá com muito ódio do Eduardo?
– Pra que você quer saber?
– Responde primeiro e depois eu explico.
– Eu não quero mais vê-lo. Só de lembrar a vergonha que ele me fez passar…
– Que vergonha?
– Não quero falar sobre isso.
– Agora fiquei curioso.
– Dane-se a sua curiosidade!
– Tá, desculpa…
– Pra que você quer saber se eu ainda tô com ódio dele?
– Porque se tá com ódio, quer se vingar. E se quer se vingar, Caio e eu podemos ajudar.
– Como?
– Tirando ele das nossas vidas e da empresa.
– Conta mais.

Então Teodoro começou a explicar todo o plano que envolvia uma festa, envenenar o homem, eles seriam os herdeiros de tudo. E concluiu:

– Se você topar, sua função é organizar a festa.
– Eu?
– Claro, Carla! Você é a pessoa mais sociável da família. Bota teus amigos blogueiros todos num salão, a gente lá no meio, porque família tem que dar o apoio moral, e se você quiser, a gente dá um sustinho em qualquer desafeto que você tenha. Nada de matar, só uma dor de barriga, ou apagar por umas horas, você manda.
– Você disse ‘matar’?
– É, matar! Você disse que não quer ver o Eduardo nunca mais, a gente também quer ele fora pra sempre. Essa é a solução.
– Não era mais fácil matar a vadia com quem ele vive? Eu não tenho…
– Se ela morre, Edu arruma outra em dois tempos. Sabia que a Liv voltou pra empresa? E ela tá uma gostosa…
– Tá bom, tá bom! Eu participo do plano.

Carla já ia começando a chorar enquanto falava. Teodoro leva os dedos de leve ao rosto dela, apagando as primeiras lágrimas.

– Prima, você merece coisa melhor.
– Eu sei. – ela responde com a voz embargada. – Mas eu o amo… e ele me usa. Mas…

Sem conseguir mais chorar, ela cai no choro de vez, e Teodoro a abraça, afaga seus cabelos.

– Calma, Carlinha! Não chore mais. Esse homem que usa você vai ter o que merece.
– Vai.
– Agora pode pensar na festança que vai dar. Faça a maior lista de convidados que conseguir.

Com um beijo na testa, Teodoro se despede de Carla, que volta para o computador assim que se vê novamente sozinha. Abre o vídeo do Tinder e começa a assistir. Lá pelo meio, um pensamento escapa em voz alta:

– Mas antes de morrer, vou esfregar na sua cara que eu posso conquistar qualquer um, Edu!

Testamento | Capítulo 1

Mais um dia passeando Recife afora em busca de mais novidades da moda para vocês, queridas leitoras. Atendendo a pedidos, estou fazendo uma série de posts especiais para as noivinhas de plantão! Você, que já encontrou o príncipe encantado e está contando os dias para dizer sim a ele pelo resto da vida, já escolheu seu vestido? E o sapato? Para você não dormir no ponto, fui a uma das lojas mais conhecidas da Boa Vista para conferir o que há de melhor para as noivas da região.

Alguns dias antes deste post começar a ser escrito, Carla estava de fato na loja de noivas e antes mesmo de ser atendida por alguma vendedora e se apresentar como blogueira de moda, sentiu uma iluminação. Ia comprar um vestido, aquele que mais lhe enchesse os olhos. Aquela visita era mais que providencial para sua audiência: era a resposta para um problema que a consumia há quase um ano. Como fazer para que Eduardo se convencesse a enfim casar com ela?

Carla viu praticamente o acervo inteiro da loja, fez milhares de perguntas até que anunciou sua vontade, já ao fim da visita, apontando para um vestido cheio de rendas, pedrarias e detalhes em dourado.

– Quero comprar aquele vestido. 

– Ah, vai casar? Que bom, parabéns…

– Obrigada, mas ainda não. Vou pedir em casamento.  – respondeu, sem dar maiores detalhes. 

– Boa sorte, então. E sucesso… com o blog!

O vestido cheio de pompa, circunstância e um véu longuíssimo ficou oculto das leitoras do blog até o final de uma tarde de sexta feira, a mesma sexta em que o post sobre a loja de noivas foi ao ar. Carla carregou sozinha a caixa pesada, a colocou o porta-malas e dirigiu quase ultrapassando todos os limites de velocidade para vias locais até chegar e estacionar tortamente na garagem de um prédio de porte mediano em cuja placa se lia Falcão Gráfica

No estacionamento, descarregou a caixa e subiu o elevador até o último andar, torcendo para não ser percebida. Olhou no relógio, ainda eram 16h30, Eduardo certamente estava lá. Entrou no almoxarifado e lá se trancou. Já conhecia bem aquele cantinho, era ali que eles costumavam ficar a sós. Ela trocou de roupa rapidamente e apanhou o celular para ligar para ele. 

Foram apenas cinco minutos de espera, ou menos. Eduardo abriu a porta, olhou para ela como quem não acredita no que está vendo e voltou a fechar. Não satisfeita, Carla saiu do almoxarifado e correu atrás dele no escritório. 

– Você não vai falar nada? Vai me largar assim mesmo? 

– Vou dizer sim: que marmota é essa?

– Não precisa ser tão grosso. 

– E você não devia se prestar a esse papel ridículo. Só não é pior porque não tem mais gente vendo. 

– Puxa… Eu só queria ver se de repente, me vendo de noiva, você se sensibilizava.

– Você está linda como sempre… – ele replicou, com uma ternura na voz que logo deu lugar novamente à frieza – Sinto muito, mas não funcionou. Já disse e vou repetir: não quero casar. Agora vai lá pra dentro e troca essa roupa que já tá me dando agonia.

Carla se sentiu pior que um cão enxotado. Queria chorar, mas lembrou que estava maquiada e não ia dar a Eduardo ou a quem quer que fosse o gostinho de vê-la se desmanchar. Saiu e não voltou mais. 

Dirigindo para casa, mais devagar para pensar melhor, apenas uma ideia lhe ocorria:

– Ele tem outra, só pode ser.

[●]

Na biblioteca da casa, os irmãos mais novos de Eduardo, Teodoro e Caio, tinham um pensamento semelhante, mas com outras palavras e outra motivação. 

– Ele deve ter uma mulher escondida em algum lugar. Ou então uma conta num paizeco qualquer.

– Ok, aí você propõe que a gente investigue.

– Claro! Precisamos de provas pra derrubar o homem.

– Mas, gente, ter uma mulher não seria exatamente…

A conversa dos irmãos foi cortada pela voz de uma senhora que já contava seus oitenta e poucos anos e até então, se encontrava muda, quase camuflada entre os móveis. 

– É exatamente isso aí! Uma mulher é uma séria ameaça aos planos de vocês. 

– Muito bem, tia – Teodoro concordou. – Vamos investigar. Por onde a gente começa? 

– Isso já é problema de vocês, se virem!

Hermengarda, a tia velha já impaciente, começou a tocar insistentemente a sineta para chamar Angélica, sua cuidadora, que já estava ganhando as primeiras rugas e perdendo pouco a pouco a agilidade e a paciência. 

Com Hermengarda fora dali, Caio e Teodoro continuaram confabulando a respeito da possível família oculta, e o que fazer caso seus temores se confirmassem. Para iniciar os trabalho, faltava contratar um detetive particular. Teodoro se encarregou disso: tinha guardado o contato do detetive que havia prestado serviços a sua ex-mulher, que o tinha pego no pulo. E nem telefonou; foi diretamente ao escritório, para surpresa do investigador.

– Doutor Falcão, que surpresa… – o investigador tentou disfarçar o susto.

– Tenha calma, rapaz, não vim lhe matar. Pelo contrário, vim oferecer um trabalho muito bom. Se você fizer direitinho, vai poder até tirar umas férias ou arranjar um lugar melhor para se instalar.

– Tanto dinheiro assim?

– Bem, é mais do que o que a minha ex te pagou.

[●]

Carla também começava uma investigação, mas não ia contratar ninguém para tanto. A mágoa pela rejeição se tornou o combustível para suas capacidades detetivescas e algo mais. Sentia-se até capaz de matar um, se fosse o caso.

Em menos de uma semana, o detetive telefonou para Teodoro marcando uma reunião. Agendaram na mesma biblioteca onde Caio, Teodoro e tia Hermengarda tinham se reunido pela primeira vez para traçar seus planos. Às 14h, exatamente o horário marcado, o investigador chegou, carregando uma pasta grossa e pesada. Caio, impressionado, não tirava os olhos do material.

– Isso tudo em apenas uma semana?

– Eu disse que o cara era bom! Não foi à toa que acabou com o meu casamento. 

– Desculpe, mas eu só revelo fatos… e fotos. – o visitante se limitou a responder.

– Então vá logo revelando o que nos interessa.

– Aí está, pode abrir. 

O detetive largou a pasta sobre a mesa e ficou só olhando. Ali dentro havia dezenas de páginas sobre a rotina do empresário, e muitas fotos que foram analisadas uma a uma. Hermengarda pediu para ver mais de perto a foto de uma casa pequena, com fachada de azulejos e sem muro.

– Que lugar é esse? 

– Doutor Eduardo Falcão costuma visitar essa casa diariamente, em horários diversos.

– Interessante. Qual o endereço? 

Com o endereço da casa na mão, Caio foi sozinho até o distrito de Camela. Não foi muito difícil encontrar o local que procurava, o imóvel ficava na rua principal. O que ele custou a acreditar foi na presença de Carla, sentada em um banco e tomando um picolé. 

– O que você tá fazendo aqui, garota?

Carla quase largou o picolé no chão.

– E o que você tá fazendo aqui, Caio? 

– Perguntei primeiro.

– Não posso passear mais?

– Não acho que tenha muito material pro teu blog aqui.

Ela não quis falar mais, ficou emburrada. Mas Caio não desistiu.

– Se eu disser o que vim fazer aqui, você fala também? 

Antes que ela respondesse, a movimentação na entrada da casa alertou a dupla. Uma mulher alta, morena, entrava na casa carregando algumas sacolas e recebendo ajuda de um garoto que, de longe, aparentava não ter mais de oito anos.

– Deve ser essa a mulher. – os primos falaram ao mesmo tempo.

– Ah, então você também veio saber quem é a mulher do Eduardo! 

Nesse momento, os olhos de Carla já estavam cheios de lágrimas. Mas ela sentia tanto ódio que não conseguia se entregar a elas.

– A outra mulher dele. 

– Espera aí… Não vai dizer que você tá com ciúme! 

– Isso não te interessa.

– Olha vamos deixar de papo furado e descobrir logo que apito essa mulher toca. Aliás, um mulherão, hein?

– Cala a boca.

– Tá muito nervosinha, não acha, Carla? O que tá rolando entre você e o Eduardo que a gente não sabe? Peraí… Quer dizer que o Edu é o mozão de quem você fala na Internet mas nunca mostra a cara?!

– Eu… Ah, não sou eu quem tá na berlinda aqui, não! – ela responde, ríspida.

– Dessa vez, a mocinha escapa. Como vamos fazer pra abordar a mulher?

Se fez silêncio entre eles. Ninguém havia pensado em uma forma de abordar a mulher sem levantar suspeitas. Então Carla falou:

– Você vai, Caio. Como quem não quer nada, pede uma informação qualquer…

– Ótima ideia, minha querida, mas é você quem vai ter que ir. Ela deve saber quem eu sou, mesmo sendo de longe.

– E a mim?

– Não, você não. Ainda mais se ele andou te dando uns pegas. Mulher é bicho ciumento, não preciso nem dar exemplo, tô olhando pra um. E se quiser me bater, espera mais um pouco. Até chegar em casa, pelo menos.

– O que eu pergunto pra ela?

– Sei lá… Ah, lembrei de uma coisa! O detetive disse que ela tem dois filhos. Um em idade escolar e uma garota que parece que é pintora… Artista amadora. Como você é blogueira… 

– De moda…

– Abre um espaço pra menina mostrar os rabiscos dela no teu blog. Diz que vai. Não precisa nem cumprir, duvido que esse povo fique lendo blog, aqui nem deve chegar Internet direito.

– Beleza. Eu vou. Fica de olho que se eu gritar, é pra chamar a polícia!

– Sim, senhora.

Assim Carla Magna se afastou do primo, indo na direção da casa de azulejo azul com passos firmes, como se quisesse jogar toda a raiva daquele momento no asfalto. Funcionou: quando chegou à porta, deu três batidinhas de leve e já estava armada com o mais meigo (e fingido) sorriso. O menino apareceu, colocando o rosto na janelinha, e Carla sentiu o corpo gelar: a criança tinha os olhos iguais aos de Eduardo. E o jeito insolente também, o que ficou logo provado quando ele abriu a boca.

– Ô, moça, a campainha tá quebrada não, viu?

– Campainha? Ah… Eu não vi. – Carla deu um olhar para o lado com ar de irritação, mas logo devolveu o sorrisinho para o rosto. – Sua mãe está?

– Ô manhê, tem uma mulher querendo falar com a senhora! – ele gritou.

– Precisa gritar não, Gabriel! Já falei pra você que não sou surda!

Martina chegou, dando um cascudo de leve no menino.

– Passa pra dentro.

– Sim senhora. – e Gabriel correu para dentro, enquanto Martina abria a porta, com ar de desconfiança.

– Você é da prefeitura?

– Eu? Não… Eu sou jornalista, da página Life & Style. Meu nome é Carolina Mendes. – Carla falou rápido, estendendo a mão e torcendo para que a mulher não a achasse conhecida de algum lugar.

– Martina Lopes.

 Estou fazendo uma matéria sobre artistas plásticos da região, e me indicaram sua filha, a… Como é o nome dela mesmo…

– Hélia vai aparecer na TV?

– TV não, revista…

Mas antes que Carla (ali, Carolina) terminasse de explicar sobre a suposta matéria, Martina se desembestou casa adentro, gritando pela filha. Sozinha, Carla aproveitou para dar uma olhadinha em volta da sala de estar.

– Bonitinho… Parece casa de boneca. Ou essa mulher tem muito bom gosto ou é o Edu quem tá bancando tudo.

Logo Martina estava de volta, trazendo Hélia pelo braço. Uma jovem muito bonita: alta, negra, os cabelos cacheados presos em coque frouxo no alto da cabeça, uma faixa branca com manchas de tinta e avental igualmente sujo na mão. Estava com a fisionomia séria, mais precisamente emburrada, como quem havia sido interrompida em algo muito importante. Gabriel vinha logo atrás.

– Senta aí e fala com a repórter. Que adianta fazer tanta coisa bonita e ninguém ficar sabendo?

Hélia sentou na poltrona e Carla fez o mesmo, ficando frente a frente com a jovem.

– Muito bem… Hélia seu nome, né?

– Sim. E o seu?

– Carolina. Me fala um pouco sobre como foi que você começou a pintar!

– Quando me deram um giz de cera na mão eu já saí pintando tudo o que vinha na frente. Parede, chão. Quando eu fui pra escolinha aqui perto de casa, demorei pra aprender a ler e escrever, mas me comunicava com os meus desenhos.

– Certo. Qual é a sua formação?

– Ensino Médio.

– E nas artes?

– Até agora não fiz nenhum curso, só umas oficinas da prefeitura. Mas estou estudando para o Enem e um dia eu quero estudar na França ou na Itália.

– O padrasto dela já disse que pagava…

– E eu já disse que não quero nada dele, mãe! Quero fazer minhas coisas por mérito próprio. Eu vendo meus quadros, já. Tem um vizinho que trabalha na praia, vende minhas coisas pros turistas. Tenho uma página na Internet também.

– Tem…?

– É. Deixa eu te dar o link, um minuto.

Hélia desapareceu pelo corredor, mas logo voltou com uma caixinha, de onde tirou alguns cartões de visita manufaturados e entregou a Carla, que estava dessa vez verdadeira e positivamente impressionada.

– Eu que fiz. – Hélia falou, ainda séria, mas com uma ponta de orgulho.

– Muito bonitos. Parabéns! Eu poderia conhecer o seu espaço de criação?

– Isso não vai dar. Nem minha mãe entra no meu atelier.

– Sério? Tudo bem então. Posso tirar uma foto sua pra matéria? A família pode aparecer.

– Tudo bem.

Posicionaram-se todos para a foto que Carla ia tirar com o celular.

– Dá um sorriso, Hélia!

Ao pedido de Carla, a pintora arqueou um sorriso tímido, e a foto foi feita. Depois disso, hora dos agradecimentos e a despedida. Carla saiu acenando e quase correndo, ao encontro de Caio, que esperava em frente a uma escola municipal.

– Então, blogueirinha? Pelo jeito o embate com a rival foi mais tranquilo do que o esperado…

Ela estende ao primo os cartões de visita de Hélia, que Caio observa com atenção antes de entrar no carro.

– E quem é a gatinha? – ele pergunta, olhando o autorretrato em um dos cartões.

– Enteada… Enteada dele, acredita? Aquela mulher falou “o padrasto dela ofereceu pagar… blá, blá, blá…”

– Pagar o que?

– Um curso de pintura. A menina é artista mesmo, ela que fez esses cartões. Vende quadro, e não aceitou a ajuda do Eduardo. Pelo menos é o que ela diz…

– Que idade essa garota tem?

– Não perguntei. Deve ter uns 19, 20 anos.

– Edu dormindo no ponto… Com uma enteada dessas… Só de ver o desenho já tô apaixonado, imagina ao vivo!

– Ela podia ser tua neta, Caio!

– Mas não é. E eu nem tô tão acabado assim, vai!

Como resposta, Carla abre a bolsa, saca um espelhinho e coloca diante do primo.

– Muito engraçadinha, dona Carla… Eu não fico devendo nada ao Eduardo e se estiver em dúvida, me ofereço para testes.

– Ridículo. Toca pra casa, vai!

[.]

Enquanto Caio e Carla pegavam a estrada de volta para Recife, Hélia se despia das roupas de trabalho e ia para o banho. Do outro lado do box, Martina falando sem parar.

– Minha filha, tá vendo? Eu aposto que foi Eduardo quem mandou aquela repórter aqui, pra te ajudar. Já que você não aceita dinheiro, pelo menos divulgação, né?

– Se foi ele, agradeço por acreditar em mim. Mas continuo não aceitando dinheiro, que ele não é meu pai e não tem obrigação nenhuma comigo. Aliás, mesmo que fosse meu pai… Eu já sou maior de idade e sei me virar.

– Ele te trata como uma filha, deixa ele assumir essa função!

– Com dinheiro, de jeito nenhum!

– Ô, menina orgulhosa!

E Martina sai, levando as roupas sujas enquanto Hélia continua o banho.

Testamento | sinopse e personagens principais

Olá, pessoas! Depois de um período de férias, estou de volta para retomar a publicação das histórias, dessa vez não mais usando outras ferramentas e sim colocando os capítulos direto no blog. Assim como aconteceu com Cafeína, sexta-feira é o dia oficial de publicação de novos textos de ficção. 🙂 Para esta temporada, escolhi publicar Testamento.

Testamento conta a história de Eduardo Falcão e seu testamento, que vai gerar uma grande confusão envolvendo todas as pessoas que fazem parte de sua vida, inclusive aquelas que jamais quiseram ter parte de seu dinheiro.

Eduardo é empresário do ramo gráfico, bem sucedido nos negócios mas odiado pelos irmãos, que também trabalham com ele e um boy (não tão boy, diga-se) lixo. Longe dos olhos da família, ele mantém um relacionamento com Martina, com quem tem um filho; e ainda tem um caso com a própria prima. Os irmãos de Eduardo planejam passar a perna nele, mas o empresário planeja surpreender a todos quando o seu testamento for lido.

Os irmãos de Eduardo são Caio e Teodoro, ambos têm cargos de liderança na gráfica, mas são ambiciosos e, além disso, detestam o fato de se sentirem humilhados, “passados para trás” pelo irmão. Eles planejam se livrar de Eduardo e assumir a empresa.

Martina e Eduardo têm apenas um filho, Gabriel, de oito anos de idade. Em um relacionamento anterior, Martina teve Hélia, jovem pintora em começo de carreira, que recusa que Eduardo assuma o papel de seu pai, embora tenha uma relação de amizade com ele.

Carla Magna é prima de Eduardo e sua amante. Blogueira de moda, tem autoestima baixa e sofre pelo relacionamento com Edu.

Liv foi noiva de Eduardo, romperam devido a diferenças inconciliáveis de estilo de vida. Depois de anos ausente, ela volta a Recife como instrutora de yoga e se reaproxima do ex.

Débora é ex-mulher de Teodoro e advogada de Eduardo.

Viviane Cabral, ou Vivica, é blogueira de estilo de vida e amiga de Carla. Sempre preocupada com os outros, busca ajudar a amiga a se reerguer e recuperar sua autoestima.

Estes são apenas os personagens principais que movimentarão a narrativa. Ao longo das semanas, falarei dos outros personagens que forem aparecendo.

O primeiro capítulo de Testamento vai ao ar amanhã, aqui no blog!

Diário de viagem: Ilhéus/BA

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Depois de deixar Penedo, seguimos viagem para Ilhéus, que era um destino já muito conversado aqui em casa. Já estivemos na Bahia em duas ocasiões anteriores: a primeira foi em 2006, quando fomos a Salvador (foi a primeira de uma sequência de viagens pelo Nordeste, e foi também uma celebração da minha aprovação no vestibular), e a segunda, Porto Seguro em 2018. A escolha por Ilhéus como a terceira cidade baiana a ser visitada teve duas motivações:

1) A literária, afinal, Ilhéus é a terra de Jorge Amado;

2) A noveleira, pois Ilhéus também foi a cidade em que se passava a novela Renascer.

(a referência da noveleira quando pensa em cacau)

Lá em Ilhéus, praticamente tudo é sobre Gabriela e Nacib: até uma estação de rádio local chama-se… GABRIELA FM!

Andando por algumas ruas do centro da cidade (precisamente a parte do comércio), lembrei muito do centro de Recife e do centro do Rio. Talvez, com o trânsito uns dez centavos mais caótico. Andar de carro foi um pouquinho complicado no começo, mas desenrolamos. 🙂 E nesse post, compartilho um pouco sobre alguns dos lugares legais que conhecemos lá (e algumas músicas que grudaram na minha cabeça).

1. Bataclan

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O célebre cabaré (que também aparece no romance Gabriela, Cravo e Canela) hoje funciona como restaurante e centro cultural. A comida lá é MA-RA-VI-LHO-SA! O preço do buffet é um pouquinho salgado, mas vale a pena. Além de comer bem, a gente também pode fazer um tour pelo prédio e conhecer o quarto da Maria Machadão.

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E não é só isso! Você ainda pode tirar foto caracterizada e ganhar um certificado de coronel ou de quenga. Depois de saber desse detalhe, a música na minha cabeça mudou para…

Também no Bataclan tem uma loja de produtos de cacau vindos diretamente da Fazenda Capela Velha. Lá, além de ter uma aula sobre o plantio, produção, exportação de cacau, ainda comprei nibs, cacau em pó, geleia de cacau e chá (sim!). E ainda ganhei um cacau!

2. Bar Vesúvio

Me surpreendi muito positivamente com o Vesúvio. Além da comida ser excelente, o preço é um pouquinho mais convidativo que o do Bataclan. E o staff, gente? Amei o atendimento. O Bar Vesúvio existe desde 1919, já passou por várias administrações e até teve outro nome, voltando a se chamar Vesúvio depois de… adivinhem?! Gabriela, Cravo e Canela! Na frente do bar (que está sempre cheio), tem uma escultura de Jorge Amado. Ou seja: é parada obrigatória para fazer uma fotinha e ainda almoçar.

3. Casa de Cultura Jorge Amado

Era a casa onde o escritor viveu, e único local onde pagamos entrada: R$5 (meia para professores e estudantes). Na frente tem outra escultura do autor, e lá encontramos livros de Jorge Amado traduzidos para diversos idiomas, objetos pessoais, além de uma linha do tempo contando toda sua história, e uma sala dos orixás.20200107_120853 (1)

4. Cine Teatro Ilhéus

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Já foi cine, hoje funciona apenas como teatro e também como galeria de arte. Quando estivemos lá, estava acontecendo uma exposição de esculturas e também quadros.

5. Casa de Arte Baiana

Essa eu não fotografei, mas foi um dos lugares mais legais que visitei. Mantido por um alemão, o espaço reúne obras de autoria de artistas baianos e estrangeiros que tenham retratado a Bahia de alguma forma. Vale muito a pena a visita, e ainda emendar com a Galeria Goca Moreno, que fica bem ao lado.

Foi nesse museu que tive um momento muito  deja vu: a estrutura do prédio, as escadas, me lembrou muito o Struwwelpeter Museum, em Frankfurt.

6. Praia dos Milionários

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Parece uma praia deserta, mas tem umas barracas legais por lá. 🙂

Nos hospedamos na Pousada Praia Bela, localizada na Praia dos Milionários, e foi uma excelente escolha! O local tranquilo, a praia também super de boas. E ainda aproveitei para fazer uma massagem lá no hotel (é possível contratar serviço de spa, massoterapia). Vale demais a pena!

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7. Chocolates Caseiros Ilhéus

Essa foi nossa última parada nos passeios, já perto de ir embora. Li algumas resenhas no google falando que fosse com o bolso preparado e… sim, eu nunca gastei tanto com chocolate quanto nessa viagem. O visual da loja lembra também aquelas construções em estilo germânico e tal… E tem a fofa miniatura de fazenda de cacau.

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Bem, por ora é isso! Eu fui a Ilhéus quase sem expectativas, mas foi um destino bastante agradável. Talvez um dia eu volte por lá, para passar uns dias de praia e comprar uns chocolatinhos – e visitar uma fazenda de cacau mesmo, que acabou não rolando dessa vez.

 

Leituras do ano | Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais (Jaron Lanier) + Deletei parte das minhas redes

Comprei o e-book depois de ter lido comentários sobre o livro em outros blogs e canais no YouTube – o primeiro deles, o Vida Organizada, da Thais Godinho. E o li bem rapidamente, em junho. Lembro que terminei a leitura no metrô, enquanto voltava para casa num dia de chuva intensa. 13 de junho: eu tinha aula na universidade, que acabou não rolando, porque estava um caos em Recife…

O título é enorme e já diz basicamente tudo o que vamos encontrar lá: argumentos (bem convincentes, diga-se de passagem) para que a gente pegue as contas de todas as nossas redes sociais e defenestre de uma vez. Dentre os argumentos mencionados, em outras palavras estão os fatos de que redes sociais tornam a gente infeliz, menos produtivos, mais isolados, nossos discursos se tornam cada vez mais descontextualizados, o diálogo diminui…

Na arte do livro, encontramos um gato, que é citado pelo autor como um animal mais livre… E nas primeiras páginas, ele mesmo cita que como um gato, temos o direito de decidir ficar ou ir, ou mudar de postura com relação às redes… Mesmo com todos os argumentos apresentados.

O que eu fiz: seis meses depois da leitura, deletei Facebook e Twitter. O Facebook era uma rede que eu já não usava há bastante tempo, entrando ocasionalmente para atualizar uma página, que conta também com outros administradores. E usava o Messenger para falar com apenas UMA pessoa. No mais, eu não me sentia bem navegando por lá, e não adiantou deixar de seguir pessoas, fazer ajustes no feed, nada: eu simplesmente não me sentia bem por lá e não tinha vontade de postar. Pelo contrário: no último dia em que acessei o Facebook (justamente o dia da exclusão da conta), senti meu coração acelerando, e não foi aquela excitação legal, não. Foi mal estar mesmo. Nesse caso, a exclusão foi só a formalização da minha não-presença ali, já que eu não usava o Facebook direito.

No caso do Twitter, eu estava relativamente ativa até semana passada. Isso depois de passar um bom tempo sem acessar a conta. Tinha o app Twitter Lite instalado, passei um tempo com a conta do Twitter conectada aqui ao WordPress, então todos os posts que eram publicados aqui eram compartilhados lá… Mas tinha um problema: eu gastava tempo demais lendo tweets, me perdendo em threads de gente que eu nem conheço. Coisas interessantes muitas vezes, mas que eu não tinha pedido para ver. Lá no Twitter eu ficava sabendo dos “cancelamentos”, das fofocas, dos últimos absurdos da política numa velocidade e volume que eu não conseguia em nenhum outro lugar. E aí começou não só a me cansar, mas a me irritar e entristecer também.

Então, depois de quase uma semana sem acessar direito, resolvi me despedir. Fazia uns 12 anos que eu estava por lá. No dia seguinte, me ocorreu algo que eu achei bem tuitável, e eu não tinha mais o Twitter para acessar. Devo ter escrito no diário, ou feito algum post para o blog – tem posts agendados por aqui. Acesso as notícias pelo Feedly (que agora está mais recheado, porque coloquei sites de notícias locais e internacionais por lá também) e me sinto menos bombardeada por opiniões.

Sobreviveram apenas três contas minhas: a do Instagram, a do LinkedIn (à qual provavelmente darei um pouco mais de atenção no futuro) e a do Pinterest, que eu uso até pouco, para pegar alguma receita ou resgatar um modelo de móvel para o quarto). WhatsApp não entra nessa conta para mim porque eu uso como um meio alternativo para o SMS e as chamadas, se bem que durante as férias estou dando um tempo dele também, para desligar dos grupos de trabalho. Apesar de o Instagram ser considerado uma das piores redes para a saúde mental, nunca tive grandes problemas com ele: por precaução, meu tempo é limitado (30 minutos diários) e as contas que sigo por lá são, basicamente:

1) Amigos e parentes;

2) Empreendimentos de amigos e parentes;

3) Meus músicos favoritos;

4) Blogs sobre viagem, estilo de vida, autoestima;

5) Perfis direcionados a causas ambientais.

Já tive algumas blogueiras de moda e beleza no meu feed, mas à medida que vou enjoando do conteúdo, vou deixando de seguir e tá tudo certo. Tem anúncios, mas praticamente não os percebo (inclusive já apareceu anúncio de perfil que eu JÁ SIGO e produto que eu já consumo, o que eu achei muito doido). Meu volume de postagens é relativamente baixo e, novamente, tempo limitado faz muita diferença. Com o YouTube, vinculado à conta do Google, geralmente eu coloco todos os vídeos que quero ver na lista de ‘assistir mais tarde’, e vou assistindo sempre que possível. Às vezes paro uma manhã de sábado e assisto, outras vezes vou zerando a lista nas brechas que encontro da semana.

Mantendo esse ritmo e tirando períodos de detox digital, acho que dá para manter uma relação saudável com redes sociais e explorar a web da melhor forma possível.

Link para compra.

Leituras do ano | Casa Organizada (Thais Godinho)

Dessa vez, não é um livro do Kindle, mas físico mesmo. E o único que me faltava da coleção (eu já tinha o Vida OrganizadaTrabalho Organizado). Provavelmente você já conhece a Thais Godinho e o blog Vida Organizada, que é referência aqui no Brasil sobre organização em geral e do método GTD, criado por David Allen.

No Casa Organizada, encontramos dicas para organizar cômodo a cômodo, sugestões para quem mora sozinho, para quem tem filhos… Ideias de listas, de uma rotina de limpeza… No ritmo de vida que a gente tem hoje, é extremamente necessário, senão a gente endoida! Outra contribuição do livro é a reflexão sobre divisão do trabalho doméstico. Não é uma discussão nova, mas precisa ser retomada, sim. Todo mundo que mora na casa pode e deve tomar parte nas atividades da casa, afinal todo mundo gosta de viver num lugar organizado, não é?

Ainda não tenho minha casa própria, mas venho tentando manter uma rotina organizada e influenciar minha família e amigos a fazer o mesmo. Fica a dica para quem não conhece ainda. 😉

Link para comprar Casa Organizada na Amazon.