“Testamento” | Capítulo 3

O plano de Carla era simples, mas para ela, que jamais havia andado por essas bandas de paquera virtual, era extremamente ousado – quem diria, logo ela, que parecia à primeira vista tão prafrentex, na verdade era uma pudica e emotiva mulher de um homem só, que sofria por amar e não ser amada por esse mesmo homem. Enfim, ela resolveu instalar o aplicativo e ainda fazer inscrição em outros sites de paquera dos quais já tinha ouvido falar. Em um deles, encontraria um homem bonito e legal o suficiente para, se não se apaixonar, ao menos fazer algum ciúme para Eduardo. O resto da noite dela foi dedicado exclusivamente a marcar as opções existentes com X (a maioria) e coraçõezinhos (alguns rapazes barbados e fortes, aparentemente altos, que apareciam na tela).

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Enquanto isso, Eduardo, Martina, Hélia e Gabriel jantavam como uma família harmônica. Ao fim da refeição, Eduardo foi para a sala e no caminho entre um cômodo e outro, tirou o celular do bolso e deu uma olhada nas chamadas não atendidas. Estava achando um bocado estranho o desaparecimento de Carla, embora não estivesse exatamente achando ruim – e achava que ela era a autora das chamadas que fizeram seu celular vibrar insistentemente durante a refeição. O silêncio dela era providencial para que as coisas entre ele e Martina começassem a se ajeitar, serem como eram antes.

Para surpresa dele, as ligações eram todas de Liv.

– Ué, o que terá acontecido? Ela não disse que precisava falar comigo…

– O que foi, Edu? Tá precisando de alguma coisa? – Hélia perguntou, o pregando um pequeno susto.

– Nada, Helinha. Coisa de trabalho. Uma ex sócia voltou pra empresa e… Ligou várias vezes pra mim, não sei pra que.

– Retorna, ué.

– A essa hora… Sua mãe vai passar a noite toda reclamando se eu ligar pra alguém pra falar de trabalho. Ainda mais sendo a…

– É uma mulher?

– Não qualquer uma. Minha ex-noiva! – ele responde, dando um sorrisinho nervoso e já meio arrependido por ter aberto um ponto inexplorado da sua vida para a enteada.

– Você traiu essa moça com a mamãe ou…

– Não, não. Liv e eu nos separamos um pouco antes de eu conhecer sua mãe. Diferenças inconciliáveis de estilo de vida.

– Entendi.

– Mas somos bons amigos, eu não sei se sua mãe entenderia isso.

– É legal quando as pessoas continuam amigas quando se separam, eu acho. Não conheço ninguém que tenha sido assim, todo mundo fala que quer o ex morto… Tão horrível.

– É verdade!

– Quando eu tiver um namorado, quero ser amiga dele quando acabar.

– Mas essas coisas a gente não pode prever, Helinha. E nem começar um namoro pensando em acabar com ele, não acha?

– Eu sei, mas do jeito que as coisas andam no mundo, ter um relacionamento duradouro está cada vez mais difícil. Você e mamãe são tipo, um recorde.

– Tem razão.

– Vai ligar pra ela?

– De verdade? Não, amanhã falo com ela no escritório.

Mudaram de assunto para um filme na TV e continuaram conversando amenidades, comentando o que se passava na tela, como o pai e filha que eles não eram. Martina se juntou à dupla logo depois, assim que Gabriel foi colocado na cama.

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No dia seguinte, enquanto Eduardo pegava a estrada para voltar à Recife, seu telefone tocou. Dessa vez sim, era Carla.

– Bom dia, Carla, tudo bem? – ele atendeu, usando o bluetooth que conectava seu aparelho ao rádio.

A resposta dela saiu em tom irônico, azedo.

– Oi, Edu. Quanto tempo, né? Eu tô… ótima. Mas acho que a gente precisa conversar.

– É verdade. Quando você pode?

– Hoje à noite. A gente se encontra no Bar Central. Tudo bem?

– Por que lá?

– Porque eu quero sair hoje.

– Merda…

– Eu não vou fazer nada que te coloque numa situação comprometedora, idiota! Eu só quero jantar fora, pode ser?

– Tudo bem. – ele concordou, ainda um pouco relutante.

– Nos vemos às sete em ponto.

– Ok.

Quando ela desligou o telefone, as notícias do dia via CBN voltaram a ecoar, em volume moderado. E ele suspirou, já sentindo algo estranho naquela proposta de ir jantar fora. Mas não demorou muito pensando nisso, concluiu que era apenas uma coisa da cabeça dele e continuou o caminho, pensando em outras coisas.

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Liv saiu correndo da primeira turma de Yoga do dia para tentar alcançar Eduardo ainda na recepção da empresa. Mas ainda assim, chegou tarde demais, segundo a recepcionista do andar onde ele ficava.

– Hoje Sr Eduardo tá com reuniões uma atrás da outra, e ainda um almoço corporativo.

– Puxa vida… E era urgente!

– Quer deixar recado? Ele retorna assim que puder.

– Não, brigada, não precisa. Eu ligo pra ele e tento um horário.

Se afastando do balcão e já descendo a escada, ela faz uma primeira chamada, mas logo desiste ao lembrar que ele está em reunião naquele momento e obviamente não poderá atender. Então resolve mandar um áudio no WhatsApp, torcendo para que ele acesse e ouça em algum momento.

– Oi, Edu! Liv aqui. Tô precisando falar contigo uma coisa muito urgente, mas não dá pra ser por telefone nem por aqui.Você pode passar lá em casa às 21:00? Eu não vou dormir enquanto você não passar lá pra gente conversar, e eu tô falando sério!

Mensagem enviada, ela faz uma pausa no café mais próximo e pede um suco de laranja, para aguardar a próxima aula.

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Já faziam alguns dias desde que Carla tinha ido à casa de Martina para “entrevistar” Hélia. E já tinha dado tempo suficiente para Martina e Gabriel terem esquecido. Mas a jovem pintora não tinha esquecido; e achou que já era tempo de buscar algo online, já que até então nenhum amigo ou conhecido tinha falado nada sobre tê-la visto em jornal ou revista online alguma.

Num intervalo da sua sessão de pintura em aquarela, Hélia busca o nome da revista, Life & Style. Existe, mas não consta nada sobre ela nas atualizações mais recentes. Bate o primeiro aperto no peito, de desapontamento: “será que não gostaram de mim? Não acharam meu trabalho digno? Não, não podia ser. Tanta gente já teceu elogios, gente de fora, inclusive.” Alguns turistas já tinham comprado seu trabalho, então não havia porque duvidar da própria capacidade. Passou para a próxima hipótese: talvez tenham deixado para publicar na semana ou mês seguinte, caso não estivesse dentro do tema escolhido pela editoria para aquele período – quem sabe? Ou ainda, hipótese três: a jornalista poderia ser uma freelancer, que simplesmente desistiu de vender sua matéria para aquele veículo e ia enviá-la para outro, que pagasse mais. Parecia uma justificativa plausível. Assim ela fez a próxima busca, pelo nome da “jornalista”. Colocou, entre aspas, o nome “Carolina Mendes”.

Os resultados que surgiram na tela eram, primeiramente, links para perfis de Facebook, Instagram e Twitter de outras moças com o mesmo nome. Hélia clica em alguns deles, mas a fisionomia de nenhuma delas bate com a da mulher que a visitou. Segue as buscas e, na segunda página, uma notícia chama a sua atenção: “Tragédia automobilística mata três pessoas na BR-232.” “Empresário do ramo de papelaria morre com esposa e filha”, dizia o lead. Na verdade, não foram nem essas duas frases que pegaram a atenção da jovem artista, mas a foto em thumbnail que acompanhava o texto. Era uma foto da família reunida, e as duas garotas, gêmeas idênticas, lembravam a Carolina que estivera em sua casa na semana anterior. Resolveu ler o texto, e o fez em voz alta.

– “Carlos Magno Mendes, sócio da rede de papelarias Colorado; sua esposa Lídia Falcão e as filhas gêmeas Carolina Lígia Mendes Falcão e Carla Magna Mendes Falcão sofreram acidente na descida da Serra das Russas; em Gravatá. O veículo perdeu o controle na descida, chocando-se contra uma mureta e ficando pendurado, por pouco não despencando em um penhasco. Carlos e Lídia morreram na hora; Carolina Lígia foi socorrida e morreu no hospital. Carla Magna, única sobrevivente e gêmea idêntica de Carolina, foi lançada para fora do veículo com o impacto, sofreu escoriações e quebrou um braço.” Caramba… Será que são parentes do Edu? Depois eu pergunto.

Fez mais algumas pesquisas, juntando o nome da moça com o termo “repórter”, finalmente jogou seu próprio nome nas pesquisas e não encontrou nada que pudesse parecer com uma entrevista. Assim, Hélia concluiu, para seu aborrecimento, que havia sido enganada. Mas não lhe ocorria nenhum motivo para que aquilo tivesse acontecido.

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À noite, antes de seguir para o encontro com Carla, Eduardo manda recado para Martina, avisando que não poderá jantar com eles naquela noite; e depois ouviu a mensagem em tom desesperado de Liv. Mais uma vez, aquela sensação esquisita da manhã voltou, mas tratou de espantá-la.

– Isso é porque eu tô trabalhando demais…

Então, para confirmar a presença, assim que entrou no carro ele gravou outra mensagem para a amiga:

– Tá certo, Liv! Às nove em ponto estou no seu apartamento. Vou precisar de uma sessão de meditação e relaxamento depois de hoje. Foi pesado, hein? Até mais.

Assim que terminou de gravar, seguiu para o bar onde Carla o esperava.

O Bar Central não estava muito cheio naquele momento, então ele facilmente localizou Carla no fundo do bar, ocupando uma mesinha à meia luz. E beijando um rapaz, o que o deixou em choque.

– Mas o que é isso? – ele pergunta para si mesmo. – Ela deve estar querendo me chocar.

Carla ainda não tinha se dado conta da chegada de Eduardo, mas de quando em quando abria ligeiramente os olhos para ver o relógio de pulso. Sabia que ele era bem pontual nos encontros. E quando viu que era já a hora marcada, resolveu ousar um pouco mais, deixar que o acompanhante a tocasse de forma mais ousada. Mesmo estando em público, ela deixou que o rapaz tocasse seus seios por baixo do moletom que estava usando.

Eduardo só assistia de longe, e estava se preparando para ir embora, comer em outro lugar; mas ao ver aquele gesto que considerou obsceno demais para sua prima, não se conteve e foi até a mesa, com os passos firmes, punhos cerrados e cara de poucos amigos.

– O que significa isso, Carla? Foi pra isso que você me chamou?

Ouvindo a voz de Eduardo, Carla se desvencilhou do acompanhante e levantou, um pouco trôpega. Não precisava olhar mais atentamente para concluir que ela estava muito bêbada.

– Eu só queria te mostrar, Edu, que você não me tem na mão…

– Claro, ele tem também. E nas duas! – Eduardo replica, agarrando a moça pelo braço – Você vai voltar pra casa agora, vou te deixar lá. E você, cara – ele continua, agora falando para o rapaz que Carla beijava – cai fora daqui, qualquer coisa ela te liga quando estiver sóbria.

– E vai fazer o quê? Vai me bater? Você não tem direito de me dizer o que fazer.

– Tenho o dever de impedir que te aconteça uma desgraça, Carla! O que você quer? Ir pra cama com um desconhecido? Esse cara podia pintar e bordar com você, e aí?

– Não ia ser pior do que o que você fez comigo! Você me humilhou, Eduardo!

Ela continuava gritando, enquanto Eduardo a carregava no colo para fora do bar e a colocava dentro de seu carro.

– Fica aí que eu vou pagar a conta.

Foi só ele se afastar alguns metros para que ela começasse a buzinar ensandecidamente. Ao mesmo tempo, Carla chorava.

Ele volta e tenta controlá-la, colocando o cinto de segurança. Nisso Carla aproveita para beijá-lo, enquanto continua chorando.

– Eu te amo, Edu! Você não merece, mas eu te amo muito!

– Eu… Ah, Carla, eu também amo você. – Ele responde, tentando se concentrar no trânsito ainda um tanto intenso, apesar de ter passado a hora do rush.

– Mentira! – Carla grita – Se você me amasse, você aceitava casar comigo, você não teria outra mulher! Eu já sei de tudo, Eduardo. Você tem outra mulher, você só me usa. Usa do meu amor, da minha inexperiência!

Sem conseguir mais dirigir, ele para em um posto de gasolina mais próximo. Respira fundo.

– Assume que é verdade?

– Eu sou um homem livre, Carla. Desde o fim do meu noivado, eu sou um homem livre.

Com a voz pastosa, Carla retruca mais uma vez:

– Mentira. Você é um traidor safado! Mas eu te amo tanto que você nunca vai encontrar uma mulher que te ame tanto quanto eu. Você não merece, mas eu te amo tanto que eu quero te guardar num potinho. É, eu vou te guardar num potinho!

– Acho que vou te mandar pra casa de Uber só pra não ouvir essa baboseira.

– Você ainda quer ser cremado quando morrer, Edu? Porque o teu dia tá chegando. A gente vai dançar na minha festa de um milhão de seguidores e depois você vai… Morrer! Eu sou a última mulher que você vai beijar na vida!

– Para de falar besteira, garota!

– Eu tô no teu testamento? O Caio e o Téo vão ficar com a empresa? É bom eles saberem porque vai que depois desse trabalho todinho eles morrem na praia e ficam sem nada. Mas se eles não forem os herdeiros, quem vai ser? A sua amante? Os filhos dela?

– Cala a boca, Carla!

Já sem um pingo de paciência, além de gritar, Eduardo ainda mete um tapa no rosto da prima, que para de falar e abaixa a cabeça, chorando. Imediatamente ele expressa arrependimento, tocando o rosto exatamente no lado em que ele bateu.

– Desculpa…

– Sai! Não encosta em mim.

Só então Eduardo consegue voltar a dirigir, enquanto Carla chora baixinho. Chegando à casa dela, ele a leva para dentro carregando no colo, e logo ela volta a falar:

– Tô com tanto tesão…

– Vai dormir, Carla.

– Eu quero fazer amor com você. – ela insiste, já abrindo a blusa e puxando a mão dele para que a toque.

– Isso, tira a roupa que eu vou te botar no chuveiro gelado e depois, dormir, moça!

– Por favor, faz aquilo que eu gosto, vai!

A situação, apesar de tudo, começava a excitar Eduardo. Mas ele sabia bem, não podia se deixar levar por aquilo. Tomou Carla novamente no colo, desta vez nua, e seguiram para o chuveiro, onde ele a colocou no boxe e ligou o chuveiro no frio. Carla apenas o observava, imóvel, com um sorriso enigmático; e começou a se tocar enquanto a água fria caía sobre seu corpo. Nenhuma palavra dita entre eles. Ela se acariciando, provocadora; ele assistindo, com o olhar petrificado. Até que não aguentou mais: Eduardo entrou, com roupa e tudo, a beijando com desejo intenso.

Só depois é que Eduardo percebeu a situação em que se encontrava.

– Droga. Olha o que você faz comigo, garota.

– Você nunca vai se livrar de mim. – Carla responde com um sorriso maroto, e já se lançando para beijá-lo, enquanto ele desliga o chuveiro. – Foi bom, não foi?

– Foi ótimo. Mas eu não devia, você está bêbada demais pra saber o que tá fazendo.

– Eu também queria. Eu sempre quero você, de qualquer jeito.

– Agora você vai dormir.

– Volta pra dormir comigo?

Eduardo não responde, apenas a conduz para a cama e sai em silêncio.

[.]

Pontualmente às nove da noite, Eduardo está, com as roupas ainda meio molhadas, diante do prédio de Liv. Chegando da rua e vendo o amigo daquela maneira, ela não esconde a surpresa.

– Choveu só em cima de você, não foi, Edu?

– Longa história, você não vai querer saber. Mas o que você queria falar comigo mesmo?

– Vamos subir.

No apartamento, ele se acomoda em uma cadeira da sala de jantar, enquanto ela prepara dois chás quentes.

– Toma, pra você não ficar resfriado. – Liv fala, colocando as duas xícaras fumegantes na mesa de tampo de vidro.

– Obrigado.

Enfim ela senta e respira fundo.

– Meu Deus, tô ficando com medo!

– O que eu vou falar é assustador mesmo. Eu ouvi… Ouvi uma conversa antes da reunião de ontem… Caio e Teodoro falando de te tirar de circulação. Em português rasgado, te matar. Sem derramar sangue, na maciota. Envenenamento. Eu precisava te contar.

A princípio, Eduardo não esboça reação alguma. Fica exatamente com aquele olhar que lançou para Carla nua embaixo do chuveiro; mas dessa vez o olhar fica fixo na fumaça que sai da sua xícara. E uma lembrança recente surge: exatamente a voz de Carla:

Você ainda quer ser cremado quando morrer, Edu? Porque o teu dia tá chegando. A gente vai dançar na minha festa de um milhão de seguidores e depois você vai… Morrer! Eu sou a última mulher que você vai beijar na vida!

E então a ficha caiu, embora ele não quisesse acreditar nisso.

– Liv, eu tive uma conversa com a Carla antes de vir pra cá… Antes de me molhar todo. Ela falou algo como se eu fosse morrer depois da festa dela.

– Então ela sabe de tudo. Se bobear, é até cúmplice mesmo, ou é só mais uma querendo te matar por alguma razão que eu desconheço. Não precisa me explicar, obrigada.

– O que eu faço?

– Em caso de ameaça de morte, chamar a polícia, né?

– Não sei… tem a minha tia. E Carla estava bêbada quando falou isso pra mim.

– Seus irmãos não estavam nem um pouquinho bêbados.

– Sabe, eu tava sentindo um negócio estranho quando estava indo trabalhar.

– Que negócio estranho?

– Uma sensação ruim. Agora tô sentindo aquilo de novo.

– Toma o seu chá, já tá morno. Vai te ajudar a relaxar.

– Mas eu não quero relaxar! Quero tirar essa história a limpo e se for verdade…

Liv interrompe a torrente de pensamentos de Eduardo segurando a mão que ele deixa livre sobre a mesa.

– Você não vai resolver essa questão com mais violência. Precisa de clareza, de segurança, isso sim.

Ele apenas a observa, sem nada dizer. E Liv continua:

– Pode falar que é papo besta de super espiritualizada, eu sei que você não liga pra essas coisas.

– Foi por isso, entre outros motivos, que a gente acabou.

– Exatamente.

– Mas dessa vez eu preciso mesmo da sua ajuda. Não vou conseguir enxergar nada com clareza com essa raiva que eu tô sentindo. Não vou nem conseguir dormir. Liv, minha vida tá muito estranha!

– Eu entendo. Talvez tenha sido por isso mesmo que eu voltei, pra te ajudar. O universo tem dessas coisas.

– Então por favor, fala pro universo vir me socorrer com urgência! Eu não quero morrer agora, não posso. Eu tenho um filho e… É isso, tenho um filho, ele é uma criança, precisa muito de mim ainda.

Liv sorri, solta a mão dele e se levanta, levando sua xícara vazia.

– Você vai dormir aqui em casa hoje. Vou pegar uma roupa seca, coisa simples. Você vai tomar um banho, botar essa roupa seca e vou fazer uma massagem em você. Só não se empolgue, porque isso não é um revival.

– Pena. – Eduardo responde, com um risinho zombeteiro.

– Vamos meditar juntos, você vai ver como vai se sentir bem melhor! Vai conseguir dormir, vai conseguir pensar…

Depois, Liv o conduz para um quarto quase sem mobília, contando apenas com os tapetes, um futon e uma mesinha de canto, onde se encontram velas e incensos. Lá, ela o instrui a sentar como se sentir mais confortável, e faz o mesmo.

– Agora, inspire profundamente pelo nariz, expire pela boca, sem pressa, e feche os olhos.

Eduardo obedece. E assim ela vai o conduzindo durante uma sessão de meditação. Depois faz uma massagem em suas costas, com óleos essenciais; e enquanto isso, ele vai contando toda a vida ele no período pós fim de noivado até aquele instante. Nada ficou oculto, nem mesmo o caso com Carla. No final da noite, já quase dormindo, ele pergunta:

– Você tá me odiando agora, não é?

– Não, Edu, eu não te odeio. Eu quero que você seja feliz e pare de fazer mal a si mesmo e às pessoas ao seu redor. Meu maior sonho é que você possa viver a vida com leveza. E nem precisa de muito pra isso, basta viver na verdade.

Liv beija Eduardo na testa, e enfim o deixa cair no sono de uma vez, adormecendo ao seu lado logo depois.

Quando amanhece, ela é a primeira a levantar da cama. Eduardo desperta cerca de meia hora depois, sentindo-se disposto.

– Bom dia! Então, como se sente?

– Você vai se ofender se eu disser que você é uma bruxa? Do bem, pra deixar bem claro.

Ela responde com uma risada, e Eduardo a abraça com força.

– Desculpa por caçoar do seu jeito de viver, e obrigado por ter me ajudado. Vou vir na sua casa dia sim, dia não, só pra dormir como eu dormi essa noite.

– Só avisando que…

– Eu sei, a gente não vai transar! Mas agora sério…

– Eu tô falando sério!

– Eu tive uma ideia para resolver esse problema.

– Pode compartilhar?

– Na hora certa você vai saber. Agora tenho que ir. Mais uma vez, muito obrigado!

Eduardo sai sem tomar o café da manhã, mas já se sentindo bem energizado e tranquilo, como não imaginava que fosse possível ficar. Antes de sair com o carro, faz uma ligação para Carla.

– Dormiu bem? A ressaca te pegou com força?

– Tô com dor de cabeça…

– Claro, bebeu mais do que podia, dá nisso.

– Por que você não veio dormir comigo?

– Eu não estava me sentindo bem.

– Vamos nos ver hoje?

– Não sei, apareceram uns pepinos de última hora aí.

– Desculpa pelas merdas que eu falei ontem.

– Tudo bem, Carla. Mas me diz uma coisa, quando vai ser sua festa de um milhão de seguidores?

– Não sei, ainda tô vendo data lá no Armazém. Por quê?

– Só pra colocar na agenda. Não quero perder o seu triunfo!

Depois que terminou o papo com a prima, ele seguiu viagem, mas em vez de ir para casa ou para a empresa, estacionou num prédio em cuja placa se lia: Coutinho & Pedrosa Advogados associados. Lá, foi encaminhado à sala onde uma mulher alta, imponente, de cabelos curtos e grisalhos o recebeu com um sorriso.

– Olá, Edu! Quanto tempo, né?

– Tá muito ocupada, Débora? Pode atender seu querido ex-cunhado?

– E eterno cliente favorito? Sempre! A que devo sua visita?

– Preciso escrever meu testamento.

– Não tá meio cedo demais pra pensar nisso? Um cara jovem e saudável como você…

– Mas fatalidades acontecem, e você conhece minha família. Não quero deixar nada pros vivos se matarem.

– Mesmo um dos vivos sendo o Téo? Tem certeza?

– Mesmo ele.