Assisti: “Corra!”

O título original do longa é Get out, o que seria traduzido literalmente como “cai fora”. Mas o título que ele recebeu no Brasil não destoa de forma alguma da proposta do filme, o que já é muito bom. A dublagem – assisti ao filme dublado aqui no Cinema Costa Dourada – não foi nada mal, embora em um ou outro momento eu sentisse um pouco de estranhamento. Isto posto, vamos aos comentários sobre o filme em si.

Chris (Daniel Kalluuya) é um fotógrafo negro que namora uma garota branca chamada Rose (Allison Williams). E eles vão passar o fim de semana na casa dos pais dela, que ele ainda não conhece. Ele parece um pouco preocupado com a possibilidade de a família da garota ser racista mas ela não só garante que sua família não é racista, ainda diz que seu pai até votaria no Obama pela terceira vez se fosse possível.

Olha o cliché aí, gente!

Até aí, tá tudo dentro do esperado de um “romance inter racial” nas telas. Quando eles chegam à residência da família é que as coisas começam a ficar bizarras.

O pai Dean (Bradley Whitford – aliás, primeira vez que vejo um filme com o xará do Brad Whitford do Aerosmith!) realmente fala do Obama como se fosse algo que o fizesse automaticamente ser um sujeito não racista. E tem uma mágoa de caboclo pela derrota do seu pai nas olimpíadas de Berlim de 1936 (era um dos corredores, e esse é um dado importante para entender os personagens), o filho Jeremy (Caleb Landry Jones) parece estar continuamente noiado enquanto faz os comentários de cunho racista (sobre código genético, etc) ou fazendo qualquer outra coisa; e a mãe Missy (Catherine Keener) lança sua cota de esquisitice individual ao lançar mão da hipnose como sua arma de trabalho.

Há pouquíssimos negros em volta do Chris durante a temporada na casa, e todos agem de forma esquisita, como se fossem robôs ou personagens do clipe de Black Hole Sun, do Soundgarden (RIP Chris Cornell). A propósito, a Missy também é assim, a meu ver.

O peixe não; mas o sorriso estranho e os olhos de maníaco estão lá.

​Essa postura estranha é que deixa o protagonista com a pulga atrás da orelha; e a coisa só piora quando ele se vê numa festa estranha com gente branca esquisita que faz questão de fazer comentários racistas jurando que estão abafando/ocultando o racismo que carregam. Daí é melhor parar, senão vai ter spoiler…

Os diálogos são meio cliché em alguns momentos, mas uma coisa tem de ser dita: o suspense foi bem feito! A gente sabe que vai ter o susto, mas a surpresa é como ele acontece, e considero isso um ponto positivo. Outro ponto positivo: a trilha sonora (by Michael Abels), principalmente nas primeiras cenas que me chamou a atenção. Muito bem feita!

E como a gente faz o serviço completo, aí vai a trilha sonora que tá disponível no Spotify!

No mais, há passagens que não consigo classificar como boa ou ruim, mas bizarro mesmo. Trazendo mais uma referência de videoclipes, há uma cena que muito me lembrou Psychotherapy, dos Ramones. Ou um episódio do Chapolin.

Disse um rapaz na saída do cinema: não é bom nem ruim. Quanto a mim, não me deixa a sensação de perca de tempo ao assistir, mas acredito que o final poderia ter sido um pouco menos óbvio. Acho que a gente pode entender a mensagem geral como uma resposta à turma que pensa em explorar que consideram que o negro tem de melhor para seu próprio benefício, dizendo que “inveja” qualquer talento que ele tenha. Mas, lá no fundo, estão sendo racistas.

Assisti: “Ghost Dog” (1999)

Os últimos filmes a que assisti e comentei foram, e não é coincidência, escritos e dirigidos por Jim Jarmusch. Parece que se continuarmos nesse ritmo, terei uma filmografia concluída até o fim do ano.

Já começo a resenha dizendo que gostei desse filme antes de assisti-lo devidamente por duas razões:

1) É um filme sobre samurais, gangsteres, bang bang. Gosto de filmes assim.

2) O texto da primeira cena, extraído de uma leitura do Livro do Samurai feita pelo Ghost Dog (Forest Whitaker), tem peso. Atrai a gente a continuar assistindo e é o começo de uma trama que se desenrola de uma forma muito coerente. Mesmo que não se repita mais aquele texto no filme, a gente acaba se remetendo a ele o tempo todo.

“Every day when one’s body and mind are at peace, one should meditate upon being ripped apart by arrows, rifles, spears and swords, being carried away by surging waves, being thrown into the midst of a great fire, being struck by lightning, being shaken to death by a great earthquake, falling from thousand-foot cliffs, dying of disease or committing seppuku at the death of one’s master.”

O assassino profissional que segue os ensinamentos dos samurais, tem por alcunha Ghost Dog e vive com os pombos, faz alguns “trabalhos” encomendados por um membro da máfia, Louie (John Tormey), a quem considera seu “mestre”. Depois do último homicídio, Ghost Dog fica marcado para morrer. E a trama segue nas tentativas de eliminar Ghost Dog.

Além do envolvimento no mundo do crime, Ghost Dog é um ávido leitor. Não só de textos sobre o universo samurai, mas literatura em geral. Isso fica bem claro pelas cenas em que são feitas citações (leituras de algum trecho de livro) e mais ainda quando ele conhece Pearline (Camille Winbush), uma garotinha que carrega os livros que lê em uma lancheira. Além dela, Ghost Dog também tem uma relação amigável com Raymond (Isaach de Bankolé), dono de um trailer de sorvetes que só fala francês. Apesar dessa barreira linguística, Raymond, Ghost Dog e Pearline se comunicam, tendo o trailer de sorvetes como ponto de encontro. A propósito, Pearline é minha personagem mirim favorita de todos os tempos até agora.

O grupo de gangsteres do qual Louie faz parte garante um ou outro momento cômico do filme, já que eles são um bocado atrapalhados e cometem erros amadores tentando matar Ghost Dog. Fora isso, um ou outro personagem têm características que os tornam algo mais leves, como o Sonny (Cliff Gorman), que gostava de rap; e o gângster com a audição avariada.

Até agora só vi três filmes do Jarmusch, e Ghost Dog para mim está empatado com Paterson como melhor filme. Espero encontrar outros títulos tão bons quanto esses em breve!

 

Ouvindo: “Bruttosozialprodukt”

Os estudos de alemão seguem firmes e fortes. Dei uma parada de alguns dias no francês, mas depois eu volto, de leve. Enquanto isso, estou aumentando o tempo que passo em contato com material em língua alemã, principalmente música, que é o que me ajuda a aprender mais rápido.

Se quando comecei eu andava muito limitada, ouvindo basicamente Heino e Peter Alexander (que eu achava meio brega, mas gostava assim mesmo), quando descobri as rádios online a coisa melhorou. E com o Spotify, que prepara daily mixes baseados no que a gente escuta com frequência (dividido por tema), todo dia encontro uma novidade. O aplicativo faz cinco playlists diárias para mim: a de música brasileira, a alemã, a instrumental, a polonesa e a de rock. Essa semana estou praticamente ouvindo só a playlist alemã e nessa acabei encontrando umas joinhas dos anos 70/80. Até agora a minha favorita é essa música do título, Bruttosozialprodukt (Produto social bruto, em português).

Quando ouvi essa música pela primeira vez, não precisei fazer muito esforço para identificar que era dos anos 80. Se fosse uma música brasileira, tocaria fácil no programa do Chacrinha. Existem duas versões de Bruttosozialprodukt: a primeira de 1978, da banda Dicke Lippe (não achei nenhuma informação sobre essa banda por aí, você coloca os termos no Google e só sai foto de gente com os lábios inchados). A segunda (que foi a que ouvi primeiro) é da banda Geier Sturzflug, cujo último lançamento foi de 2015.

E houve ainda a terceira versão, em francês, com o título PNB (Produit National Brut), de Nanard. É basicamente uma tradução para o francês da letra, e o som é igualzinho ao do Geier Sturzflug, que é a versão mais famosa. Tanto que não há muitos registros de Nanard ou de Dicke Lippe por aí… Mas independente da versão, essa é uma música com refrão chiclete. Se tivessem feito a versão brasileira naquela época, teria feito o maior sucesso.

O melhor de “Grace and Frankie”, terceira temporada

Finalmente consegui um tempo para concluir a terceira temporada de Grace and Frankie, a série com a melhor turma da terceira idade que a gente respeita. De tudo o que eu vi desde o início da série, essa foi a que mais me empolgou e emocionou. Se na primeira temporada a gente acompanhou a adaptação da dupla protagonista à vida de solteiras após 40 anos de casamento e na segunda teve a oficialização da união de Sol (Sam Waterston) e Robert (Martin Sheen) e o estreitamento da amizade de Frankie (Lily Tomlin) e Grace (Jane Fonda); na terceira elas estão muito mais unidas. Não deixam de brigar, mas agora a dependência emocional que uma tem da outra é muito maior.

A primeira parte dessa temporada foca nos preparativos e no levantamento de verba para lançar a Vybrant, companhia desenvolvedora de vibradores para a terceira idade criada e desenvolvida por Frankie e Grace, que são as únicas funcionárias da empresa também. Uma vez resolvida a questão da grana, as personagens passam a agir em função de fazer a Vybrant ser um sucesso; e lidar com as consequências desse sucesso sendo uma empresa de apenas duas pessoas.

No começo, minha personagem favorita era a Frankie, por ser mais cuca fresca, artista e tals… Tirando a parte da maconha, acho que eu seria uma velhinha tranquilona feito ela.

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Nessa temporada, principalmente no final dela, a gente percebe as fragilidades de Frankie vindo à tona. Além do medo de ficar sozinha, outras questões como o pavor de armas de fogo e a dificuldade de tomar decisões que podem mudar sua vida, depois de tantas mudanças grandiosas. Por essas situações, ela se torna o centro das atenções na reta final. Ela não deixou de ser uma das melhores personagens para mim; mas no quesito evolução, outros personagens subiram muito no meu conceito.

Robert e Sol, por exemplo, ganharam força a partir do segundo terço da temporada, quando chega o momento da aposentadoria. O episódio em que Sol finalmente se aposenta foi o primeiro a me fazer chorar. Enquanto isso, Robert abraça outros desafios, estreando no teatro comunitário; e conflitos, como sair do armário para a mãe.

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Outra coisa que me chamou a atenção é que finalmente as animosidades entre os ex-casais parece ter sido superada na segunda metade dessa temporada, principalmente a partir do episódio O chão, em que eles as levantam do chão, literalmente.

Do final da segunda temporada para o início da terceira, os filhos dos dois ex-casais não tinham plots que me chamassem muita atenção, com exceção de Brianna (June Diane Raphael) e Coyote (Ethan Embry).  Dessa vez, todos eles tinham histórias de peso: Mallory (Brooklyn Decker) em crise no casamento, Bud (Baron Vaughn) assumindo o controle do escritório de advocacia, Coyote se mantendo sóbrio e tentando se organizar profissional e pessoalmente… Brianna foi a que mais me surpreendeu. Ela não perde o senso de humor ácido que lhe é característico, mas começa a demonstrar alguma fragilidade quando acaba dispensando Barry (Peter Cambor), que ela começou a namorar no fim da segunda temporada; e começa a perceber que falta algum romance na sua vida, alguém com quem possa trocar afeto de verdade.

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Por alguns momentos, achei que essa poderia ser a última temporada, mas a quarta já está confirmadíssima, com participação especial de Lisa Kudrow (eu gostaria muito que Wendie Malick voltasse também na quarta temporada, gostei da participação dela). Tem bons ganchos para lá: os avanços da Vybrant, os relacionamentos amorosos de Grace e Frankie, a vida de Sol e Robert pós aposentadoria, e muito mais.

“Amantes eternos” (2013), de Jim Jarmusch

No último final de semana, assisti a mais um trabalho da filmografia de Jim Jarmusch, o longa Amantes eternos (título original: Only lovers left alive), que foi lançado em 2013. Esse é o único filme do diretor que está disponível na Netflix Brasil, então quem quiser assistir, aproveita!

Os protagonistas do longa são Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), um casal de vampiros que está junto há vários séculos, e começam o filme morando em países separados – o contato deles se dá modernamente por telas (ela um pouquinho mais in do que ele, já que usa um iPhone). Os dois passam a morar juntos em Detroit e a rotina tranquila do casal é perturbada por uma visita indesejada: a irmã dela, Ava (Mia Wasikowska).

Embora seja um filme com vampiros, e eu não seja interessada no tema, achei tranquilo de assistir. Há até uma ou outra cena que provoca riso, como a primeira vez em que vemos Adam indo buscar sangue em um hospital.

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Assim como em Paterson, filme que veio depois de Amantes eternos, aqui também os personagens – especificamente Adam e Marlowe (John Hurt) – tem uma forte veia artística que, por eles serem vampiros, fica oculta, ou só vai a público sob a assinatura de outras pessoas.

O que mais me chamou a atenção logo no começo – e que, para mim, é o grande ponto forte de Amantes eternos – é a trilha sonora. As músicas são ótimas! Inclusive tem playlist no Spotify, que tratei de seguir assim que acabou o filme. Outro ponto forte são as locações escolhidas, principalmente Detroit com seus prédios abandonados. Uma excelente locação para um filme com vampiros.

O que não me animou muito foi o desenvolvimento do roteiro de forma geral. Não que tenha sido exatamente ruim, mas eu estava esperando algo mais, principalmente do terço final.

E um comentário absolutamente sem relação com o filme: quando eu vi Adam e Eve usando óculos escuros à noite, lembrei do Heino.

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Aproveitando a legenda para comentar o quanto eu amo a voz desses dois.
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Este é o Heino, que não tem nada a ver com o filme, mas podia ter.

Para quem gosta de filmes com temática vampiresca, Amantes eternos é bem recomendado. Mesmo para quem não curte muito, vale a pena pela trilha sonora e pelo cuidado estético.

Minhas heroínas da música

Há alguns meses, lá no Superela, escrevi um texto indicando algumas músicas da Bruna Caram que fazem parte da minha lista “levanta-moral”, “limpa-fossa music”, essas coisas. Atualmente, ela é uma das minhas cantoras favoritas, mas não é a única, claro. Tenho uma pequena lista de cantoras favoritas, que chamo de “minhas heroínas”, e nesse post resolvi compartilhar um pouquinho de cada uma delas com vocês.

1. Joyce Moreno

Só fui virar fã da Joyce lá pelos meus 19 anos, quando descobri por acaso um dueto dela com Beto Guedes cantando Rio Doce. Antes, em mil-novecentos-e-eu-era-pirralha eu tinha ouvido Clareana no rádio, como praticamente o Brasil inteiro, mas não tinha dado muita importância.

Gostei da voz e fui atrás de conhecer a discografia dela. Lembro que eu estava em uma lan house (oh, tempos sem Internet em casa!) e ouvi A Banda Maluca, Gafieira Moderna Tudo Bonito. Pronto, virei fã em duas horas de lan house, aproximadamente. Nessa época, até o corte de cabelo dela eu adotei!

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De lá pra cá, a admiração só cresce. E a coleção também: discos, livro, DVD. Só falta ir a um show. Uma semana depois do show do Aerosmith, ela esteve em Recife tocando com João Bosco e Toquinho em um um show em homenagem a Tom Jobim. Mas a bonita aqui soube em cima da hora, logo, não deu para ir. 😦 Mas tudo bem, ficamos de olho nas próximas apresentações.

Infelizmente, Joyce não é tão conhecida do público brasileiro, mas na Europa e Japão, é um sucesso! Os álbuns dela são inclusive lançados primeiro lá fora (pela Far Out Recordings) e depois, vem para o Brasil.

Agora que estou aprendendo violão, um dos meus objetivos é tocar algumas músicas dela – Clareana eu já toco. Quando eu crescer quero ser assim!

2. Leila Pinheiro

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Essa já é minha favorita desde criança! Quando mudei de escola, comecei a fazer viagens diárias para Recife. Numa dessas, ouvi Catavento e girassol e me apaixonei, mesmo sem entender a letra direito.

Meu tio tinha uma fita com músicas de Leila, Maria Bethania e Zizi Possi. Um dia, voltando da escola, tomei posse da fita lindamente e nunca mais ninguém soube dela, ficou no meu walkman, e eu a ouvi até que a fita quebrou – e eu remendei, para ouvir mais um pouquinho.

Um momento mágico: Joyce Moreno e Leila Pinheiro cantando Essa Mulher no DVD de Joyce em comemoração aos 40 anos de carreira.

Um tesouro: o EP Por onde eu for, autografado. Esse foi o lançamento mais recente dela, via campanha de crowdfunding, do qual participei (gosto desse negócio de crowdfunding, gente, já participei de uns quatro, me chamem que eu vou!)

3. Leny Andrade

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Outra que eu amo desde a infância, e aí é desde a infância mesmo! Antes de me encantar com a voz da Leila Pinheiro no carro enquanto ia para a escola, havia Leny cantando Homenagem ao malandro na rádio (acho que era a Tribuna FM, de Recife). Uma lembrança da infância tão forte pra mim quanto a propaganda da Adroaldo Tapetes Persas, hoje Adroaldo Tapetes do Mundo, na mesma emissora, ou qualquer música do Belchior, ou a fita VHS da Barbie e os roqueiros – como veem, tive uma infância bem eclética em termos de entretenimento.

Cresci, descobri outros músicos, e esqueci um pouco de Leny. Até que a reencontrei, em um disco feito em parceria com César Camargo Mariano, chamado Nós. A versão deles para Tristeza de nós dois é uma das melhores versões dessa música (talvez perdendo apenas para a versão de Joyce no álbum Raiz).

Só perde para um álbum inteiro dela com o guitarrista Romero Lumbambo, chamado Lua do Arpoador, onde constam versões deliciosas de Influência do Jazz (Carlos Lyra), Aqui, Oh! (Toninho Horta/Fernando Brant) e Desenredo (G.R.E.S. Unidos do Pau Brasil) (Ivan Lins/Gonzaguinha). A propósito, Leila Pinheiro também regravou essa última, juro que não sei qual é a minha  versão favorita.

4. Dorota Miskiewicz

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Conheci Dorota pesquisando no Wikipedia. Joguei “polish singers” no Google, fui ouvindo um monte de gente, mas quando cheguei nela, parei tudo o que estava fazendo. Foi por causa dela que acabei descobrindo Grzegorz Turnau, meu cantor polonês favorito.

E esse vídeo foi o culpado.

Eles participam de vários trabalhos um do outro – e como falei em um dos posts anteriores sobre os shows que pretendo ver um dia, existe uma boa chance de ver os dois ao vivo ao mesmo tempo, já que a parceria não se resume aos estúdios. O álbum 7 Widoków w drodze do Krakowa (7 pontos de vista no caminho para a Cracóvia), do Turnau, tem cerca de metade das faixas com participação de Dorota. Inclusive ela participou das fotos promocionais do álbum e participa dos shows também.

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Foto: Rafał Masłow, para o site oficial de Grzegorz Turnau

Ano passado, Dorota lançou um dos seus trabalhos mais bonitos: Piano .PL. A faixa de abertura do álbum já é uma joinha, uma versão de Krótka bajka, do… Grzegorz Turnau.

5. Basia Trzetrzelewska

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Apesar de ser polonesa também, não cheguei à Basia na minha pesquisa por músicos poloneses. Ela não canta em sua língua mãe (salvo um trechinho final de Copernicus), e seu estilo é mais puxado para a bossa nova, eu diria que ela é a mais brasileira das cantoras polonesas, tamanha a influência que a gente percebe na obra dela. A música que me apresentou a Basia foi Astrud, uma homenagem a Astrud Gilberto.

Sua produção fonográfica é pequena, e dos álbuns lançados, o meu favorito é o The sweetest illusion, que já ganhou resenha aqui no blog.

O estilo da Basia me inspira muito quando estou cantando. Acho que ela tem um jeito legal de cantar, sem economia, sabe?

Tem muitas outras cantoras que eu gosto, mas essas quatro não podem faltar nas minhas listas de favoritas.

“Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie

Voltando a falar de Americanah, agora com a leitura concluída! Esse foi um livro que li num ritmo mais lento, em parte porque estava lendo mais de um livro ao mesmo tempo (há duas semanas, eu estava em Americanah, Feliz ano velho e A room of one’s own – esse último ainda muito no começo). O que ajudou: li Americanah na versão e-book, edição 4th Estate, de Londres.

Esse é o terceiro romance da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e na época de sua publicação gerou um burburinho legal. Muita gente, inclusive eu, só soube da autora através desse romance, que é protagonizado pelos personagens Ifemelu e Obinze, nativos da Nigéria e vivendo em Lagos, a maior cidade do país (e que até 1991 foi sua capital, sendo substituída por Abuja – este blog não é só cultura, é também geografia! ^_^).

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Lagos, na Nigéria. Fonte: Gettyimages

Eu diria que Americanah é muito mais sobre Ifemelu do que sobre Obinze, seu namorado de adolescência/começo da juventude. Mas com o avanço da estória, percebi que a vivência dele é tão essencial quanto a dela, embora ocupe menos partes (de um total de 7 partes, em três ele tem protagonismo). Ambos vão buscar, em momentos diferentes de suas vidas, uma nova vida em um país estrangeiro. Ela vai primeiro para os EUA, com a perspectiva de continuar seus estudos após sucessivas greves que acontecem nas universidades nigerianas nos anos de 1990. E é dessa partida para os EUA que vem o título do romance: amigos de Ifem dizem que quando ela voltar para seu país de origem, será uma Americanah. Após algum tempo separado da namorada, é a vez dele partir, só que para a Inglaterra.

O plot se desenvolve em sua maior extensão a partir das experiências de Ifemelu no país norte-americano, onde sua tia Uju também vive com o filho Dike. É explorada a luta para se estabelecer como indivíduo nas instâncias pessoal e profissional, a descoberta das questões raciais (em uma determinada passagem após sua volta para a terra natal, Ifem comenta que ao desembarcar na Nigéria, ela deixa de ser negra. Em outras palavras, em seu país natal, os conflitos gerados pelo preconceito racial inexistem. Ao chegar aos EUA, tudo isso é descortinado aos seus olhos. Mais tarde, muitas desventuras depois, ela cria um blog anônimo no qual analisa questões raciais como uma negra não-americana. A página suscita amores e ódios, a catapulta para a fama, especificamente no meio acadêmico. Mas depois de vários anos vivendo em terras norte-americanas, ela se inquieta para voltar à Nigéria e rever tudo o que deixou para trás; incluindo o seu ex-namorado Obinze.

Uma das questões raciais do livro tem relação com a estética feminina, o que é “bonito” ou “feio”, “mais” ou “menos profissional”; e já fiz um post sobre ele há alguns dias, justamente porque foi um aspecto que me chamou a atenção de imediato, devido à minha própria vivência de transição capilar. Mas vai além disso: questões ligadas a relacionamentos inter-raciais e interculturais, política, educação, posicionamento no mercado de trabalho, são levantadas através dos posts do blog de Ifemelu (alguns posts são reproduzidos no final de alguns capítulos) e pela sua própria trajetória e dos expatriados ligados a ela, como Uju, que é uma médica que luta na primeira parte do livro para se integrar no mercado norte-americano em sua área de atuação.

As reflexões sobre raça que Americanah levanta são pertinentes e válidas tanto para quem já vem se aprofundando no tema há algum tempo como para quem não sabe basicamente nada sobre o assunto. E não apenas para a realidade norte-americana. Muitas das questões levantadas no romance são identificáveis aqui no Brasil, por exemplo, mesmo com adaptações. Mas o que me chamou a atenção de verdade foram as passagens  que apresentam Lagos nos (agora distantes) anos 90 e nos dias atuais. Muitos de nós têm um conhecimento quase nulo do que seja a Nigéria, de como seja seu povo e sua história (estenda isso para os povos africanos em geral); e embora não cubra a totalidade, porque é impossível fazer isso em um romance, é muito legal ter uma perspectiva de uma local sobre a cidade, o comportamento de seus compatriotas no que diz respeito a relacionamentos e religião, por exemplo (que não é muito diferente de nós latinos, vamos combinar). Particularmente, fiquei com vontade de conhecer Lagos! O livro contém muitas expressões em igbo (e coincidentemente, ouvi um episódio do Rookie Podcast que falou um pouco sobre adolescentes descendentes de nigerianos interessadas em aprender igbo, uma língua que vem se perdendo com o passar das gerações).

Apenas uma coisa me deixou um pouco desapontada: o final; mais precisamente o último capítulo. Não que tenha sido exatamente ruim, mas acho que poderia ter sido um pouco mais extenso, melhor explorado… Talvez seja uma implicância pessoal, já que no meu ponto de vista as nuances sociais, políticas e históricas desenvolvidas em Americanah me pareceram muito mais interessantes do que o “romance romântico” em si. Num geral, é um livro interessante, que vale a pena ler sem pressa.

Quem quiser ler o e-book em inglês, como eu fiz, segue o link! Edições em português também são fáceis de encontrar na Amazon, Saraiva ou Cultura.